O relatório da Polícia Federal que teve o sigilo retirado nesta terça-feira (1º) reúne mensagens, registros de encontros e documentos que apontam para uma relação próxima entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Entre os episódios descritos está uma conversa, dois dias antes da prisão de Vorcaro, em que ele perguntou ao ministro se deveria deixar o Brasil.
O material foi elaborado a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro, apreendido no âmbito da Operação Compliance Zero. O documento tem mais de 200 páginas e reúne conversas com um contato identificado no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, além de outros registros analisados pelos investigadores.
Segundo o relatório, em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Na mesma mensagem, o banqueiro fez questionamentos sobre um juiz identificado como Ricardo, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e perguntou se seria possível fazer alguma coisa diante das medidas que poderiam ser adotadas contra ele.
Dois dias depois, em 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando tentava embarcar em um jato particular com destino ao exterior. Pouco antes da prisão, às 23h48, ele teria enviado outra mensagem a Moraes informando que estava indo assinar documentos com investidores estrangeiros e que estava “online”.
O relatório também aponta que as mensagens entre Vorcaro e o contato atribuído a Moraes eram enviadas por meio de capturas de tela de textos escritos no aplicativo Notas do celular. De acordo com informações divulgadas sobre a perícia, a PF conseguiu recuperar mensagens enviadas pelo banqueiro, mas as respostas de Moraes não aparecem integralmente no material analisado.
Registros de encontros
Além das mensagens, a investigação identificou registros que indicam encontros entre Moraes e Vorcaro ao longo de 2024 e 2025. As informações incluem referências feitas pelo próprio banqueiro a reuniões com o ministro e registros de deslocamentos e compromissos.
Entre os episódios citados estão um jantar em fevereiro de 2024, encontros em julho e novembro daquele ano e novas reuniões em fevereiro, março, abril, maio e agosto de 2025. Em março de 2025, por exemplo, Vorcaro teria informado a pessoas próximas que estava reunido com Moraes, em um encontro que avançou pela madrugada.
Em abril de 2025, o banqueiro também teria comunicado que encontraria o ministro durante o feriado, em um compromisso na região de Campos do Jordão, em São Paulo.
O relatório ainda registra que, em 14 de novembro de 2025, três dias antes da prisão, Vorcaro enviou uma mensagem de agradecimento na qual afirmou ter uma “dívida de vida” com Moraes e sua família. O conteúdo foi localizado pela PF no celular apreendido durante a investigação.
Contrato de R$ 131 milhões
Outro ponto analisado pela Polícia Federal é a relação comercial entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
Segundo o material divulgado, o escritório firmou um contrato com o banco no valor de aproximadamente R$ 131 milhões. A investigação também aponta que o ministro teve acesso ao documento e que metadados indicariam sua participação nas últimas alterações do arquivo.
O escritório de Viviane Barci de Moraes confirmou que Alexandre de Moraes teve acesso ao contrato, mas afirmou que a consulta ocorreu para verificar possíveis impedimentos legais.
A PF também analisou tratativas envolvendo outros benefícios e serviços que teriam sido oferecidos a Moraes e familiares, incluindo o uso ou transferência de cotas de aeronaves. O material, porém, ainda integra uma investigação e não estabelece, por si só, a ocorrência de crime ou favorecimento ilegal.
Em outro episódio revelado nesta semana, a PF apontou negociações envolvendo um segundo contrato, estimado em R$ 50 milhões, que incluiria cotas de um jatinho e de um helicóptero, além de despesas com voos. O escritório de Viviane Barci de Moraes nega a existência desse segundo contrato e afirma que o único acordo firmado foi o primeiro.
Crise no STF
A divulgação do relatório aumentou a tensão dentro do Supremo Tribunal Federal. O documento foi tornado público após decisão do ministro André Mendonça, relator do caso relacionado ao Banco Master.
Mendonça deverá levar a análise do material ao plenário do STF. A Procuradoria-Geral da República também passou a avaliar os elementos reunidos pela Polícia Federal.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, posteriormente pediu a anulação e o arquivamento do relatório, alegando que houve irregularidades na forma como a apuração foi determinada. Segundo Gonet, uma investigação que atingisse outro ministro do Supremo deveria observar procedimentos específicos e ser submetida ao plenário da Corte.
Enquanto a discussão jurídica sobre a validade da apuração avança, permanecem sob análise os registros de encontros, as mensagens atribuídas a Vorcaro e os documentos relacionados ao Banco Master.
A investigação deverá esclarecer a autenticidade das conversas, a identidade dos interlocutores e o contexto dos encontros, além de verificar se houve conflito de interesses, favorecimento ou eventual interferência em apurações envolvendo o banco. Até o momento, as informações divulgadas pela PF não representam uma conclusão definitiva sobre a prática de crime.

