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há 6 meses

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Trump teria "descartado" Bolsonaro por vê-lo como um "perdedor", diz ex-embaixador americano

Diplomata John Feeley afirma que mudança de postura de Washington em relação ao Brasil reflete personalidade errática de Trump e não vitória diplomática de Lula

Em uma entrevista à BBC News Brasil, o ex-embaixador dos Estados Unidos no Panamá e veterano analista de política latino-americana John Feeley fez uma avaliação crítica sobre as recentes oscilações na relação bilateral entre Brasil e EUA, centrando sua análise no comportamento do presidente norte-americano Donald Trump em relação ao ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e ao atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva. 

Uma relação baseada em conveniências, não em estratégia

Para Feeley, que deixou o serviço diplomático em 2018 por discordar de decisões de Trump e hoje dirige o Centro para a Integridade da Mídia das Américas (CMIA), a aproximação entre Trump e Bolsonaro jamais foi sustentada por um projeto estratégico consistente. Em sua visão, o vínculo entre os dois líderes foi fruto de interesses momentâneos e alinhamentos ideológicos circunstanciais, e nunca de uma visão profunda dos rumos políticos do Brasil. 

Alems

Segundo ele, Trump nunca teve um conhecimento profundo sobre Bolsonaro ou sobre a política brasileira — “posso quase garantir que ele não acorda todos os dias pensando no Brasil”, afirmou à BBC. Para o ex-embaixador, Trump simplesmente deixou de achar útil um aliado que passou a ser visto como um “perdedor” após sua condenação e prisão. 

“Assim que Bolsonaro perdeu, ou seja, assim que foi condenado e preso, Donald Trump o viu como um perdedor, e se há algo que Donald Trump não tolera são perdedores”, afirmou Feeley. 

O recuo americano não foi uma vitória diplomática

A análise de Feeley — corroborada por veículos que repercutem a entrevista — sugere que a reversão de sanções econômicas e tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil não teria sido fruto de habilidades negociais do governo Lula, mas sim de um Trump que simplesmente retirou o foco do Brasil assim que Bolsonaro deixou o centro do jogo político. 

O diplomata chegou a afirmar que o presidente brasileiro “teve sorte” com a reconstrução do diálogo com Washington — não por mérito estratégico, mas por uma combinação de fatores imprevisíveis na atuação de Trump. 

“Acho que Lula, francamente, teve sorte”, disse Feeley. “E eu encorajaria tanto Lula quanto praticamente qualquer líder a se manterem fora da órbita de Trump, na medida do possível.” 

Feeley ainda avaliou que personalidades como o senador Marco Rubio, então no centro das discussões sobre política hemisférica em Washington, não teriam exercido influência substancial sobre as decisões de Trump em favor de Bolsonaro — e que, ao contrário, pressões de lobbies e circunstâncias políticas internas contribuiram mais para os movimentos de Trump do que uma estratégia vinculada ao Brasil. 

Trump e sua política externa volátil

O ex-embaixador qualifica o estilo de Trump como imprevisível, personalista e baseado em impulsos individuais em vez de cálculos de longo prazo — uma característica que, segundo ele, complica qualquer negociação diplomática consistente com Washington. 

Essa instabilidade teria sido especialmente visível na gestão de medidas como tarifas sobre produtos brasileiros e a inclusão de autoridades brasileiras em listas de sanções, que foram posteriormente suspendidas por Trump sem admitir publicamente um erro — algo que, na avaliação de Feeley, seria consistente com um padrão de comportamento ao longo da vida do presidente americano. 

Contexto regional e implicações mais amplas

Além de comentar a relação bilateral, Feeley também abordou temas mais amplos na política externa americana, incluindo a postura dos EUA frente à Venezuela, destacando que medidas como o bloqueio a navios petroleiros sancionados podem ter impacto mais direto no governo de Nicolás Maduro do que em sua população, embora não deva ser simplificado como causa única da crise humanitária no país vizinho. 

Ele também posicionou o Brasil, na atual fase, como um interlocutor relevante no debate hemisférico — não por força de alianças partidárias, mas por sua própria experiência recente com a defesa de instituições democráticas. 

O que está em jogo para 2026

A entrevista de Feeley — amplamente repercutida pela imprensa brasileira — levanta questões sobre como os Estados Unidos escolhem seus aliados na América Latina e até que ponto essa escolha é orientada por avaliações pragmáticas ou por percepções pessoais de líderes estrangeiros. Com 2026 se aproximando e um novo ciclo eleitoral no Brasil, essas análises podem influenciar a interpretação de políticas externas e estratégias domésticas tanto em Brasília quanto em Washington.
 

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