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Lula

há 8 meses

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"Rei morto, rei posto": Lula diz que Bolsonaro pertence ao passado após encontro com Trump

Presidente brasileiro afirma que ex-chefe do Planalto "era nada" e tenta reposicionar o Brasil como protagonista nas relações internacionais, em meio a negociações para encerrar tarifa de 50% imposta pelos EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou nesta segunda-feira (27), após encontro com Donald Trump na Malásia, que Jair Bolsonaro “faz parte do passado” e que o líder norte-americano compreende que “rei morto, rei posto”. A fala, pública e deliberadamente simbólica, sinaliza uma tentativa de sepultar não apenas a imagem do ex-presidente, mas também o alinhamento político que marcou o governo brasileiro nos últimos anos.

A reunião ocorreu durante a 47ª Cúpula da ASEAN, em Kuala Lumpur, e marcou a primeira conversa presencial entre Lula e Trump desde que o republicano reassumiu a presidência dos Estados Unidos. A encontro foi descrito por integrantes do Itamaraty como “duro, porém objetivo”. Entre os temas principais estiveram a disputa comercial que opõe os dois países e o impacto do julgamento de Bolsonaro sobre as relações bilaterais.

Alems

Durante entrevista a jornalistas após a reunião, Lula não economizou adjetivos. “Ele sabe que rei morto, rei posto. O Bolsonaro faz parte do passado da política brasileira”, afirmou. O presidente também reforçou que, à medida que Trump se reunir mais vezes com ele, “vai perceber que o Bolsonaro era nada, praticamente”.

O tom adotado por Lula tem dupla função: político para dentro, geopolítico para fora. Ao rebaixar a relevância de Bolsonaro, o chefe do Executivo tenta comunicar ao governo norte-americano e ao mercado internacional que há nova linha de comando — sem o risco de ruptura ou confronto permanente com os EUA, como ocorreu em momentos do último ciclo.

Segundo Lula, houve também espaço para tratar da escalada de tensão comercial após os Estados Unidos imporem uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, alegando “ameaças à democracia e perseguição política a opositores”. O presidente disse que pediu a Trump que suspenda temporariamente as medidas enquanto as negociações avançam. “Expliquei que o julgamento foi muito sério, com base em provas muito contundentes”, relatou.

A conversa, porém, não se restringiu à pauta econômica. Lula afirmou ter informado Trump de que existia “um plano para matar a mim, para matar meu vice-presidente e para matar Alexandre de Moraes”. A frase dramatiza o contexto do processo contra Bolsonaro e tenta demonstrar a gravidade institucional da tentativa de ruptura democrática investigada no Brasil. Aliados de Lula veem nessa narrativa um componente estratégico para justificar, também diante de Washington, o endurecimento interno.

Reconfiguração internacional — e mercado como testemunha

O Itamaraty avaliou que o encontro foi “melhor do que se esperava”. Trump, segundo fontes do Palácio do Planalto, não demonstrou resistência aberta à retomada de uma aliança estratégica com o Brasil — desde que setores econômicos americanos não vejam risco para seus interesses. A visita ocorre num momento em que a Casa Branca tenta conter a crise diplomática com a Venezuela e busca mediadores na região. Lula se colocou à disposição para facilitar uma saída negociada, gesto visto como pragmático.

Ao mesmo tempo, o presidente brasileiro tenta desfazer a impressão de que seu governo estaria alinhado apenas com eixos alternativos à ordem ocidental, como BRICS e OPEP-Plus. O movimento é calculado, especialmente após a repercussão negativa da tarifa americana no agronegócio — base essencial da governabilidade.

Bolsonaro como personagem em extinção — mas politicamente vivo

Ao classificar Bolsonaro como “passado”, Lula sinaliza que não pretende mais disputar protagonismo simbólico com o antecessor. A estratégia busca tirar do ex-presidente a condição de antagonista exclusivo. Ainda assim, analistas veem risco nessa operação: Bolsonaro continua com forte capacidade de mobilização e influência nas redes. Ignorá-lo pode ser tática eficiente — desde que o governo sustente resultado econômico e estabilidade institucional.

Movimento calculado e mensagem para múltiplos públicos

A declaração “rei morto, rei posto” é mais do que uma provocação. É uma tentativa explícita de reordenar a hierarquia de importância no tabuleiro político internacional e sinalizar maturidade institucional ao parceiro mais sensível economicamente ao Brasil. Para o público interno, ao mesmo tempo, Lula tenta impor narrativa de que não há mais disputa com Bolsonaro — porque ela estaria encerrada.

Se essa estratégia funcionará, dependerá da resposta de Trump ao gesto, do comportamento do mercado — e da capacidade de Bolsonaro provar, nos próximos meses, que ainda não está morto politicamente.
 

Ouça a fala de Lula:

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