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POLÍTICA

há 8 meses

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Frente parlamentar das bets age nos bastidores, esvazia CPI e impede aumento de imposto

Grupo com forte articulação no Congresso atuou para neutralizar investigações sobre o setor e barrar proposta de aumento tributário apresentada por Fernando Haddad

Um dos grupos mais discretos — e influentes — do Congresso Nacional é a chamada “bancada das bets”, formada por parlamentares com ligação direta ou simpatia pelos interesses das casas de apostas esportivas. Com articulações silenciosas, o grupo tem conseguido vitórias estratégicas: impediu o avanço de uma CPI que investigaria irregularidades no setor e ainda travou a proposta do Ministério da Fazenda que previa aumentar a tributação sobre as empresas do ramo.

Apesar da pouca visibilidade, a atuação da bancada é eficiente. Fontes relatam que, longe dos holofotes, parlamentares ligados ao setor costuraram acordos para esvaziar a Comissão Parlamentar de Inquérito dedicada ao tema. Com a mobilização, o que poderia ser uma ampla investigação virou um processo inconclusivo e sem consequências práticas.

Alems

A relação entre políticos e empresários do setor inclui benefícios que vão além do Congresso. Um exemplo emblemático foi a viagem do senador Ciro Nogueira (PP-PI) ao prestigiado Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1. O parlamentar teria cruzado o Atlântico a bordo de um jatinho particular pertencente a um empresário ligado às apostas esportivas — uma demonstração do nível de proximidade entre parte da classe política e os interesses privados do setor.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vinha tentando aumentar a carga tributária sobre o segmento como parte do esforço para ampliar a arrecadação federal, mas encontrou forte resistência dentro do Congresso. A proposta acabou sendo barrada, graças à movimentação do grupo de parlamentares que defende os interesses das empresas de apostas.

A atuação dessa frente parlamentar levanta preocupações sobre a transparência nas relações entre agentes públicos e o setor privado, especialmente em um mercado que movimenta bilhões e carece de uma regulação mais robusta.

CPI virou "pizza" com articulação do setor

A CPI das Apostas, que surgiu em meio a denúncias de manipulação de resultados em partidas de futebol e suspeitas de lavagem de dinheiro, tinha potencial para abalar o setor. No entanto, com forte articulação política, a bancada conseguiu desmobilizar os trabalhos da comissão, esvaziar depoimentos relevantes e evitar a convocação de nomes ligados a grandes plataformas.

O resultado? A comissão terminou sem apresentar um relatório conclusivo ou responsabilizar figuras-chave. Parlamentares e especialistas apontam que a investigação foi engavetada em troca de acordos políticos e interesses empresariais.

Imposto barrado: vitória do lobby contra Haddad

Outro ponto central da atuação da bancada das apostas foi a resistência ao projeto de Fernando Haddad de elevar a tributação sobre o setor. A proposta fazia parte da estratégia do governo federal para ampliar a arrecadação e equilibrar as contas públicas em 2025.

O plano de Haddad previa tributar de forma mais rigorosa as casas de apostas, que hoje operam com margens de lucro bilionárias e, muitas vezes, pagam menos imposto do que outros setores da economia. No entanto, a ofensiva encontrou um obstáculo sólido dentro do Congresso, organizado por parlamentares simpáticos ao setor — o que acabou enterrando a proposta.

Viagens de luxo e proximidade com empresários

A relação entre políticos e empresários do setor de apostas já não é mais apenas institucional. Há episódios que evidenciam um grau elevado de proximidade entre os dois mundos.

Um exemplo emblemático foi o do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que viajou à Europa para acompanhar o Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1 — um dos eventos mais exclusivos do esporte mundial — a bordo de um jato particular pertencente a um empresário do setor de apostas. O episódio levantou dúvidas sobre a independência de parte dos parlamentares que discutem e votam projetos diretamente ligados à regulação da atividade.

Setor bilionário, pouco regulado e politicamente protegido

As apostas esportivas movimentam bilhões de reais por ano no Brasil, com forte presença de empresas internacionais. Desde que foram autorizadas, em 2018, o mercado cresceu de forma explosiva, mas a regulação ainda é falha, abrindo espaço para abusos, sonegação, falta de transparência e, em alguns casos, atividades ilícitas.

O governo federal busca implementar um marco regulatório mais robusto, que inclui exigências para operar legalmente, regras de publicidade e, principalmente, uma tributação mais justa. No entanto, o avanço dessas medidas esbarra no poder político do setor, representado por sua bancada no Congresso.

Risco à transparência e à democracia

Especialistas em transparência pública e cientistas políticos alertam que a influência direta de setores econômicos bilionários sobre parlamentares compromete o processo democrático. Quando interesses privados se sobrepõem ao interesse público, enfraquece-se a capacidade do Estado de legislar de forma justa, eficaz e equilibrada.

Além disso, a falta de regulação efetiva do setor de apostas pode gerar impactos sociais relevantes, como o aumento do vício em jogos, prejuízos financeiros à população mais vulnerável, e risco de envolvimento com organizações criminosas, que podem usar plataformas de apostas como meio de lavagem de dinheiro.

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