O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, afirmou nesta sexta-feira (26) que a Corte poderá avaliar medidas contra as sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos a ministros do tribunal. A fala ocorre na reta final de sua gestão à frente do STF, que será concluída na próxima segunda-feira (29), quando ele passará a presidência a Edson Fachin.
Barroso disse que “o ideal” é que a questão seja resolvida de maneira política, mas não descartou a possibilidade de recorrer a instrumentos jurídicos. Segundo ele, o tribunal vai esperar a conclusão definitiva do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados para então discutir uma resposta.
Ele também voltou a criticar a reação internacional ao caso, afirmando que as autoridades americanas “foram convencidas de uma narrativa que não é verdadeira” sobre o Brasil. “Uma coisa é você apoiar o ex-presidente. A outra coisa é você discordar de uma decisão do Ministro Alexandre. Outra coisa é dizer que no Brasil tem uma ditadura. Então, dizer que no Brasil existe uma ditadura judicial, eu acho que é uma falsificação da verdade”, declarou.
Crise com os EUA
As sanções aplicadas pelo governo Donald Trump suspenderam vistos de oito ministros e atingiram financeiramente o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo contra Bolsonaro. Para tentar reverter o cenário, Barroso revelou que sugeriu até mesmo a contratação de um escritório de lobby em Washington.
Ainda assim, admitiu que “prevaleceu a narrativa dos que perderam” e que a imagem do Judiciário brasileiro foi fragilizada no exterior. Lula, segundo Barroso, estaria otimista sobre um possível diálogo direto com Trump, mas a crise evidencia que a confiança internacional no STF foi abalada.
A “pacificação” que não veio
Na entrevista, Barroso reconheceu sua maior frustração: não ter conseguido promover a “pacificação do país”. Ele afirmou que há pessoas presas por atos de 8 de janeiro e pelo chamado “golpe” que não querem a reconciliação. “Quem teme ser preso está querendo briga, e não pacificação”, disse.
O discurso, no entanto, ignora um ponto central: a pacificação não viria da criminalização seletiva de adversários políticos, mas sim da restauração de um Judiciário imparcial e de respeito às liberdades democráticas. A insistência em tratar críticas ao STF como “falsificações da verdade” só aumenta a percepção de autoritarismo.
Um legado contestado
Barroso destacou medidas de sua gestão, como a criação do Exame Nacional da Magistratura e programas de inclusão na magistratura. Relembrou ainda a sua atuação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quando atuou contra a adoção do voto impresso — medida apoiada pela maioria da população.
O ministro disse não ter planos de deixar o STF após o fim da presidência. Porém, o que marca sua saída da cadeira de comando é menos a pauta administrativa e mais o desgaste crescente entre a Corte, a sociedade e agora até parceiros internacionais.
Na prática, Barroso entrega o STF a Fachin em meio a um cenário de desconfiança interna e pressão externa, em grande parte resultado de decisões que, sob a justificativa de proteger a democracia, acabaram por corroer a própria credibilidade da instituição.


