O Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização associada à produtora do filme “Dark Horse” — cinebiografia ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro — registrou um crescimento expressivo em sua arrecadação nos últimos três anos. De acordo com documentos fiscais apresentados pela própria entidade, o faturamento chegou a R$ 54 milhões em 2025, um salto de aproximadamente 170 vezes em relação ao início do período analisado.
O aumento acelerado da receita chamou a atenção de órgãos de fiscalização e motivou investigações que apuram possível irregularidade na aplicação de recursos. Entre os pontos analisados está a hipótese de eventual desvio ou repasse sem transparência adequada de verbas públicas destinadas a projetos executados pela ONG.
O Instituto afirma atuar em iniciativas voltadas à educação e formação, mas a expansão financeira em ritmo considerado fora do padrão para o setor tem sido questionada por especialistas em controle de contas públicas.
Ligação com produtora e investigação policial
O caso ganhou repercussão após a divulgação de contratos e movimentações financeiras que indicam ligação indireta do ICB com a Go Up Entertainment, produtora associada ao filme “Dark Horse”. A empresa tem como sócia Karina Ferreira da Gama, também representante do Instituto Conhecer Brasil.
Dark Horse é uma produção que se tornou alvo de atenção política e jurídica após o surgimento de questionamentos sobre a origem e o destino de recursos vinculados a projetos associados.
Segundo a investigação conduzida pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), há suspeitas de que recursos públicos possam ter sido utilizados de forma irregular, inclusive para custear a produção audiovisual. A apuração envolve contratos firmados com a gestão municipal de São Paulo.
Em 1º de junho, a produtora e o instituto foram alvo de operação da Polícia Civil. As investigações seguem em andamento e não há conclusão definitiva sobre eventuais irregularidades.
Relatórios e despesas
As demonstrações financeiras apresentadas pelo ICB ao Ministério da Justiça em fevereiro deste ano também estão sob análise. Os documentos foram encaminhados pela entidade no processo de solicitação do certificado de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), que permite maior facilidade na captação de recursos públicos.
Em 2022, quase toda a receita declarada teria sido destinada a “serviços de terceiros”, no valor de R$ 299 mil. Já em 2025, os gastos com essa categoria chegaram a R$ 52 milhões, sem detalhamento específico das despesas executadas.
Entre os demais custos declarados estão:
- Despesas com pessoal: R$ 452 mil
- Encargos sociais: R$ 85 mil
- Aluguéis: R$ 224 mil
- Transporte e veículos: R$ 70 mil
- Comunicação: R$ 18,8 mil
- Manutenção de projetos e outras despesas: R$ 72 mil
- Despesas bancárias: R$ 88,7 mil
- Impostos e taxas: R$ 3,3 mil
Questionamentos do Ministério da Justiça
Em parecer técnico, o Ministério da Justiça apontou que o estatuto da entidade não estaria adequado às exigências legais para certificação como Oscip. O órgão identificou cláusulas que poderiam permitir benefícios a associados, o que contraria a legislação que regula organizações sem fins lucrativos.
O instituto recebeu prazo de 60 dias para ajustar o estatuto, com recomendação de exclusão de dispositivos que preveem benefícios aos associados e inclusão de regras que garantam prestação exclusivamente de interesse público.
O prazo teria terminado em 29 de maio, sem confirmação pública de alterações até o momento.
Situação segue em apuração
As investigações continuam em andamento e ainda não há conclusão sobre eventuais irregularidades administrativas ou financeiras. O Instituto Conhecer Brasil e as demais partes citadas ainda não tiveram responsabilização definida pelas autoridades competentes.


