Uma onda de crimes brutais voltou a mobilizar a opinião pública brasileira. No Rio de Janeiro, a Polícia Civil investiga um grupo de suspeitos acusados de estupros coletivos contra alunas adolescentes do Colégio Pedro II. O caso principal, ocorrido em janeiro de 2026 em um apartamento de Copacabana, envolve uma jovem de 17 anos que foi atraída por um colega menor de idade e violentada por vários homens.
Lesões graves no órgão sexual, nas costas, nádegas e uma possível fratura na costela foram constatadas pelo exame de corpo de delito. Agora, ao menos dois outros episódios semelhantes, praticados pelo mesmo grupo — incluindo fatos de 2023 e outubro de 2025 —, vêm à tona, com relatos de chantagem via gravações e o mesmo “modus operandi”: confiança inicial de um conhecido da escola seguida de agressão coletiva.
Esses incidentes não representam fatos isolados. Eles expõem uma realidade que especialistas descrevem como persistente, mas, na maioria das vezes, invisível.
Uma rede de abusos que se repete
A 12ª Delegacia de Polícia de Copacabana apura os novos casos. Uma das vítimas, que tinha 14 anos na época do primeiro abuso (hoje com 17), depôs recentemente e relatou ameaças de divulgação de imagens. Outro episódio envolveu uma festa junina. O delegado Ângelo Lages destacou a gravidade: “O que deve ficar claro, principalmente para os meninos, é que não é não”. Dois suspeitos já se apresentaram à polícia, enquanto outros permanecem foragidos. A investigação inclui análise de celulares para recuperar possíveis vídeos e mensagens.
Casos como esse ganham visibilidade quando ocorrem em áreas de maior poder aquisitivo, mas especialistas alertam que abusos semelhantes acontecem diariamente em periferias e comunidades tradicionais, afetando sobretudo mulheres negras, transexuais e crianças, sem o mesmo eco na mídia ou rapidez nas investigações.
Números que chocam: 22.800 casos em quatro anos
O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, registra dados alarmantes. Entre 2022 e 2025, foram notificados 22.800 casos de estupro coletivo no Brasil — quando duas ou mais pessoas participam da agressão sexual. Isso equivale a mais de 15 ocorrências por dia. Do total, 14,4 mil vítimas eram crianças e adolescentes do sexo feminino, e 8,4 mil, mulheres adultas. A maioria absoluta das vítimas são meninas e adolescentes.
Esses números, contudo, estão longe de retratar a dimensão real do problema. A subnotificação é enorme, impulsionada pelo medo de represálias, pelo julgamento social e pela proximidade entre vítima e agressores — muitas vezes conhecidos ou colegas.
Especialistas cobram mudanças culturais profundas
A violência coletiva carrega um peso simbólico extra, funcionando como ritual de afirmação de poder. Najara Barreto, gestora executiva do Instituto Justiça de Saia e do projeto Justiceiras, explica: "A violência sexual, especialmente em sua forma coletiva, permanece cercada por camadas históricas de silêncio. Em casos de estupro coletivo, esse silêncio tende a ser ainda maior. A vítima não enfrenta apenas um agressor, mas um grupo. O medo de represálias, a exposição pública e o trauma psicológico muitas vezes se tornam barreiras quase intransponíveis para a denúncia."
Ela complementa: "O estupro coletivo, diferentemente de outras formas de violência sexual, possui um componente simbólico adicional: ele funciona como ritual de poder. O crime deixa de ser apenas um ato de violência sexual e passa a operar como uma demonstração pública de domínio sobre o corpo feminino."
Roseli de Oliveira Barbosa, presidente da Tamo Juntas, reforça a invisibilidade seletiva: "Casos semelhantes estão acontecendo também todos os dias nas comunidades periféricas, nas comunidades tradicionais, sobretudo atingindo de forma mais incisiva as mulheres negras, transexuais, crianças e outros grupos vulneráveis e não vemos esses casos terem as mesmas visibilidades e resolutividades num curto espaço de tempo."
Celeste Leite dos Santos, promotora de Justiça e presidente do Instituto Brasileiro de Atenção Integral à Vítima (Pró-Vítima), destaca a necessidade de ir além da punição: "O estupro coletivo, muitas vezes, envolve dinâmicas de poder e de afirmação de masculinidade dentro de grupos. Por isso, o enfrentamento a este tipo de crime exige não apenas punição, mas, também, mudanças culturais profundas, que reduzam a tolerância social à violência sexual."
A psicanalista Ana Lisboa alerta para o impacto duradouro nas vítimas jovens: "Quando um abuso acontece nessa fase e essa vítima não é acolhida, quando as pessoas não a compreendem, o impacto emocional é muito forte. Primeiro pelo trauma do próprio abuso. Depois porque ela ainda precisa lidar com todas as consequências disso sozinha. Isso gera uma sensação muito intensa de humilhação, inferioridade, culpa e medo, como se de alguma forma ela fosse responsável por aquilo que aconteceu."
Caminhos para o enfrentamento
Leis mais rigorosas — como a ampliação da definição de estupro em 2009 e o aumento de penas para casos coletivos em 2018 — representam avanços. No entanto, lacunas persistem: demora em investigações, falta de acolhimento psicológico e ausência de educação ampla sobre consentimento nas escolas. Especialistas defendem campanhas direcionadas a jovens, maior capacitação de profissionais de saúde e segurança, e políticas que priorizem grupos vulneráveis.
Enquanto o país debate esses crimes recentes, o alerta é claro: a violência sexual coletiva não é exceção. É um problema estrutural que exige ação urgente para quebrar o ciclo de silêncio e impunidade. Denunciar e acolher vítimas é o primeiro passo — mas mudar a cultura que tolera esses atos é o caminho definitivo.


