O Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul (MPT-MS) promoverá, no dia 14 de outubro, às 14h, no prédio da corregedoria em Campo Grande, o ato simbólico #JustiçaPorVanessa, em memória da jornalista e servidora Vanessa Ricarte, vítima de feminicídio em fevereiro deste ano. Durante a cerimônia, será instalado o Banco Vermelho, símbolo internacional de enfrentamento à violência contra a mulher, na sede do MPT estadual.
O convite à participação indica que os presentes vistam roupas pretas, como forma de luto e protesto. A iniciativa é aberta ao público e deverá contar com procuradores, servidores, familiares, amigos e representantes de entidades envolvidas em políticas de proteção às mulheres.
A escolha do MPT para receber o símbolo não é aleatória: Vanessa era servidora do órgão e, segundo os organizadores, sua morte provocou reflexões estruturais internas sobre os protocolos de acolhimento às mulheres em situação de risco.
O Banco Vermelho é um monumento simbólico que já circula por instituições públicas e espaços urbanos em várias cidades brasileiras, com o objetivo de conscientização contínua sobre a Lei Maria da Penha e a necessidade de práticas institucionais mais humanizadas de atendimento às vítimas de violência doméstica.
A iniciativa em Campo Grande conta com parceria da Câmara Municipal, por meio da vereadora Luiza Ribeiro, que coordena a Procuradoria Especial da Mulher “Jornalista Vanessa Ricarte”. A instalação no MPT será a primeira na capital do Estado.
Contexto e repercussões do caso Vanessa Ricarte
Vanessa Ricarte, de 42 anos, foi assassinada na noite de 12 de fevereiro de 2025 com três facadas no tórax, dentro de sua própria casa, em Campo Grande. O crime foi cometido pelo então noivo, identificado como Caio Nascimento, que foi preso em flagrante.
Horas antes do homicídio, Vanessa havia se dirigido à DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) para registrar boletim de ocorrência contra o homem e solicitar medida protetiva, relatando agressões e ameaças. Segundo familiares, ela não teria recebido acolhimento adequado — tendo sido atendida de forma “fria e seca” e orientada a “voltar para casa” sem garantias de proteção.
O caso gerou repercussão regional e nacional, provocando debates sobre os procedimentos de atendimento a mulheres em situação de risco, além de pedidos por mudanças institucionais nos sistemas de vigilância e proteção à mulher.
Em março, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul apresentou denúncia contra Caio por feminicídio, além de divulgação de cena de nudez, cárcere privado, violência psicológica e perseguição. A denúncia foi aceita pela 1ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande.
Além disso, o episódio levou a articulações políticas no Estado. Em sessão na Assembleia Legislativa (ALEMS), parlamentares debateram propostas para reforçar mecanismos de prevenção e vigilância contra a violência de gênero.
Segundo dados compartilhados durante as mobilizações, em Campo Grande foram registradas 6.946 ocorrências de violência doméstica em 2024, e até setembro de 2025, já são 5.688 denúncias — média de cerca de 24 registros por dia. Também foram reportados 381 casos de estupro, dos quais 330 envolveram crianças e adolescentes.
Importância simbólica e expectativas para o ato
Para os organizadores, o ato #JustiçaPorVanessa e a instalação do Banco Vermelho pretendem manter viva a memória da jornalista e servir de alerta contínuo às instituições e à sociedade sobre a urgência de políticas efetivas de proteção às mulheres. A dimensão simbólica do banco — um assento pintado de vermelho — busca evocar presença, visibilidade e questionamento ao silêncio institucional diante da violência.
A escolha da sede do MPT reforça o caráter institucional do gesto: homenagear na casa de exercício profissional de Vanessa e estimular que o órgão se projete como agente ativo na prevenção da violência de gênero.
Durante o ato, espera-se que sejam reafirmados compromissos públicos de melhoria nos protocolos de acolhimento, assistência e proteção às mulheres que denunciam abuso ou vivem sob ameaça. Também é provável que discursos e manifestações reforcem a necessidade de políticas públicas estruturais que articulem órgãos de segurança, assistência social, saúde e justiça.
A iniciativa insere-se em um contexto nacional em que o “Banco Vermelho” tem sido adotado por diversas cidades e instituições como marca tangível de resistência, memória e exigência por transformações.
Ao final, espera-se que o ato funcione tanto como homenagem póstuma quanto como um instrumento de mobilização e vigilância constante para que casos como o de Vanessa não permaneçam apenas em capítulos individuais, mas degraus para reestruturações institucionais e culturais mais profundas.


