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INVESTIGAÇÃO

há 9 meses

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Bebidas clandestinas com metanol ligam mortes ao crime organizado

Substância altamente tóxica foi identificada em bebidas clandestinas; especialistas explicam riscos e como identificar a diferença

A sequência de mortes na Rússia e os recentes casos de intoxicação em São Paulo chamaram atenção para o risco do consumo de bebidas alcoólicas adulteradas com metanol, substância altamente tóxica que pode causar cegueira e até levar à morte mesmo em pequenas doses.

Na região de São Petersburgo, ao menos 25 pessoas morreram neste mês após ingerirem vodcas falsificadas. Exames periciais confirmaram que oito delas apresentavam intoxicação por metanol. Até agora, 14 pessoas foram presas, entre elas uma professora de 60 anos e um aposentado de 78, suspeitos de fabricar e engarrafar a bebida em uma instalação improvisada. Mais de 1,3 mil litros de destilados adulterados foram apreendidos pelas autoridades locais.

Alems

No Brasil, seis casos de intoxicação por metanol já foram confirmados desde junho no estado de São Paulo, três deles fatais. Outros dez permanecem em investigação. As mortes incluem um homem de 58 anos em São Bernardo do Campo, um de 54 anos na capital paulista e outro de 45 anos cuja residência ainda não foi identificada.

Ligação com o crime organizado

Segundo o diretor de comunicação da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), Rodolpho Heck Ramazzinio, parte do metanol importado por grupos criminosos para adulterar combustíveis pode ter sido desviada para destilarias clandestinas de bebidas. Ele afirma que o redirecionamento teria se intensificado após a Operação Carbono Oculto, da Receita Federal, que em agosto desmantelou um esquema bilionário de fraudes e falsificações no setor de combustíveis, atingindo cerca de mil postos ligados ao PCC.

“Eles buscam volume e lucro rápido, sem qualquer preocupação com a saúde da população”, disse Ramazzinio em entrevista à TV Brasil.

De acordo com o Anuário da Falsificação 2025, o setor de bebidas foi o mais prejudicado pelo mercado ilegal em 2024, com perdas de R$ 88 bilhões – incluindo R$ 29 bilhões em tributos sonegados.

Como o metanol age no corpo

Especialistas alertam que, embora semelhante ao etanol, o álcool comum presente nas bebidas, o metanol é metabolizado de forma diferente, transformando-se em formaldeído e ácido fórmico, substâncias que se acumulam nos órgãos e podem causar sérios danos.

Os sintomas iniciais surgem geralmente entre 12 e 14 horas após a ingestão e incluem dor de cabeça, náusea, vômito, dor abdominal, confusão mental e alterações visuais como visão turva ou manchas, que podem evoluir para cegueira temporária ou permanente. Nos casos graves, há sobrecarga celular que compromete a produção de energia pelo organismo, levando a falência múltipla e morte.

“Doses de apenas 10 ml já podem causar cegueira. O risco é muito alto e o tratamento precisa ser imediato”, explica a oftalmologista Hanna Flávia Gomes, do CBV-Hospital de Olhos do DF.

Orientações às famílias e estabelecimentos

O Centro de Vigilância Sanitária (CVS) de São Paulo reforça que bares, empresas e consumidores devem redobrar a atenção com a procedência das bebidas. Produtos legalizados trazem rótulo, lacre de segurança e selo fiscal – sinais que ajudam a evitar tragédias.

“Comprar bebida de origem clandestina é colocar a própria vida em risco”, reforça o órgão.

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