A morte de Ísis Ojeda da Silva, uma bebê de 1 ano e 9 meses, em 9 de julho de 2025, em Camapuã (MS), evidencia uma sequência de negligências tanto dentro da própria família quanto por parte dos órgãos públicos que deveriam protegê-la. A criança, portadora de traqueostomia, chegou ao hospital sem vida e em condições chocantes, com suspeita de violência sexual e histórico de descaso.
Desde os primeiros meses de vida, Ísis enfrentou dificuldades de saúde e dependia de cuidados específicos. Ainda bebê, foi submetida a um procedimento para uso permanente de traqueostomia, exigindo acompanhamento constante — que não ocorreu. Mesmo com registros anteriores de maus-tratos ao irmão mais velho e sinais evidentes de negligência, nenhuma ação concreta foi tomada a tempo de salvá-la.
O pai está preso por suspeita de envolvimento direto nas agressões. A mãe, Simiona Ojeda, responde por possível omissão e segue sendo investigada pela Polícia Civil. O caso é tratado como estupro de vulnerável com resultado morte.
Sinais ignorados desde 2024
O primeiro episódio grave envolvendo Ísis ocorreu em 2024, quando ela foi hospitalizada com pneumonia e passou a viver com traqueostomia. A saída do hospital foi acompanhada de recomendações médicas detalhadas, mas a rotina de acompanhamento e higienização foi negligenciada.
Relatórios médicos da época já apontavam que a bebê não recebia os cuidados básicos. A vacinação estava atrasada, e não havia registros de retorno às unidades de saúde. Em paralelo, o irmão da menina, ainda com pouco mais de dois anos, apresentava hematomas e relatou, em uma consulta, que havia apanhado do pai.
Esses elementos constavam em prontuários e foram comunicados à rede de proteção. Mesmo assim, não houve mobilização eficaz.
Reação lenta
Em junho de 2025, já de volta a Camapuã, a família vivia em uma residência emprestada por parentes, sem estrutura adequada. No dia 18 daquele mês, uma denúncia anônima alertou o Conselho Tutelar sobre o estado de saúde de Ísis e a condição de vulnerabilidade da casa.
O relatório produzido após a visita constatou que a traqueostomia da criança estava mal cuidada e o ambiente era insalubre. A mãe alegou estar recebendo apoio financeiro do governo e tentando reorganizar a vida, mas não apresentava registros de comparecimento regular ao posto de saúde.
A situação se agravou no dia 4 de julho, quando o Hospital Universitário em Campo Grande atendeu Ísis em estado crítico. Médicos relataram a presença de larvas na traqueostomia e notificaram formalmente o Conselho Tutelar de Camapuã, pedindo ação imediata. Ainda assim, o acompanhamento oficial só foi iniciado em 7 de julho. Dois dias depois, a menina morreu.
Investigações em andamento
Após o óbito, o Ministério Público do Estado acionou a Justiça para suspender o poder familiar dos pais e garantir proteção ao irmão da vítima, que foi acolhido por uma família cadastrada no programa de acolhimento do município.
O caso gerou comoção e reações tardias de autoridades. A Polícia Civil instaurou inquérito e a Promotoria já anunciou a abertura de novas frentes investigativas para apurar possíveis responsabilidades de todos os envolvidos, inclusive do Conselho Tutelar.
Relatos de familiares reforçam o abandono
A tia materna das crianças revelou que acompanhava de perto a rotina da família e tentou intervir diversas vezes. Segundo ela, a mãe não demonstrava interesse pelos cuidados básicos da filha. “A traqueostomia da Ísis vivia suja. Eu mesma limpava quando via, porque não aguentava ver aquela cena”, disse.
A tia também relatou que uma parente do pai tinha conhecimento dos maus-tratos, mas nunca denunciou. Luiza, como se identificou, cuidava frequentemente do irmão de Ísis e agora busca obter a guarda definitiva do menino.
“O vínculo é muito forte. Ele me chama de mãe. Sempre chorava quando tinha que voltar para a mãe. Desde pequeno foi assim”, contou. Em uma das internações de Ísis, ela e o marido ficaram com o menino por dois meses consecutivos.
Sistema falhou, mais uma vez
Apesar dos sinais emitidos desde 2024 por profissionais da saúde, familiares e até mesmo a denúncia formal do hospital, nenhuma intervenção concreta foi feita até dois dias antes da morte. A atuação tardia dos órgãos responsáveis revela um padrão preocupante de omissão.
O caso de Ísis não é isolado. Em janeiro de 2023, a menina Sophia também morreu em Campo Grande vítima de agressões cometidas pela própria mãe e pelo padrasto. Na época, como agora, denúncias e sinais de alerta foram ignorados por semanas.
Ambas morreram dentro de casa, em silêncio, sob os olhos de um sistema que falhou em sua missão mais básica: proteger a infância.


