A Câmara Municipal de Campo Grande deu início a uma etapa decisiva na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Transporte Público: uma auditoria independente vai vasculhar as finanças do Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo da capital, para esclarecer suspeitas de desequilíbrio financeiro e má gestão no contrato de R$ 3,4 bilhões.
A empresa contratada, Platinum Contabilidade e Gestão Ltda., terá dois meses, de 1º de julho a 1º de setembro, para analisar documentos contábeis, contratos, balanços e repasses públicos, a fim de produzir um parecer técnico confiável. A contratação, no valor de R$ 55 mil, foi publicada no Diário Oficial do Legislativo.
Segundo o presidente da CPI, vereador Lívio Leite (União Brasil), a medida visa confrontar informações conflitantes entre duas perícias já apresentadas — uma delas, contratada pelos próprios empresários do transporte, ao custo de R$ 272 mil, apontou uma realidade bem diferente da investigação inicial, que detectou lucro e falhas contratuais.
“Precisamos de um laudo imparcial. Existem pareceres que apontam lucros milionários e outros que falam em prejuízo. Essa perícia será decisiva para sabermos quem está falando a verdade”, afirmou Lívio.
Relatora contesta alegações do Consórcio: “Matemática que não fecha”
Para a relatora da CPI, vereadora Ana Portela (PL), a versão apresentada pelo consórcio de que enfrenta prejuízos desde o início da concessão é no mínimo duvidosa. Segundo ela, nenhuma empresa se manteria ativa com anos seguidos de perdas financeiras.
“É uma matemática que não bate. Só o Consórcio Guaicurus consegue operar por tanto tempo no vermelho e ainda manter a concessão”, disse a parlamentar, que já havia solicitado uma auditoria própria para avaliar os números.
Outro ponto que levantou críticas foi a ausência do fluxo de caixa — informação fundamental para avaliar a real saúde financeira da empresa. De acordo com o diretor da Agereg (agência municipal que regula o transporte), José Mario Nunes da Silva, o consórcio nunca apresentou esse documento, dificultando a fiscalização.
Guaicurus recebeu R$ 64 milhões em benefícios públicos só em 2024
Apesar de alegar prejuízo, o consórcio será beneficiado neste ano com cerca de R$ 64 milhões em subsídios e isenção de ISS, segundo dados da própria CPI. A falta de transparência na aplicação desses recursos é outro foco da investigação, que ainda busca entender como o grupo continua operando com uma frota sucateada e queixas crescentes dos usuários.
Além da análise documental, a equipe contábil acompanhará oitivas e reuniões, prestando apoio técnico aos vereadores durante o andamento da comissão.
Especialistas defendem melhorias no sistema, não ruptura de contrato
Durante sessão da CPI na última quarta-feira (2), dois especialistas de peso — Jurandir Fernando Ribeiro Fernandes, engenheiro e ex-secretário de Transportes Metropolitanos de SP, e Maria Lúcia Torrecilha, urbanista e professora da UFMS — apontaram caminhos para transformar o transporte público de Campo Grande.
Entre as sugestões, estão:
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Implantar ar-condicionado nos ônibus: “Não é luxo, é necessidade”, disse Jurandir;
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Aumentar a velocidade média dos coletivos para 25 km/h com faixas exclusivas e semáforos inteligentes;
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Reestruturar o sistema para tornar o transporte público mais atraente e eficiente, reduzindo o uso excessivo de carros;
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Criar uma política de mobilidade urbana com foco em ciclovias, calçadas acessíveis e planejamento de vias de acordo com cada bairro.
Maria Lúcia destacou que, sem melhorias na infraestrutura urbana — como asfalto adequado, drenagem e calçadas — o sistema de transporte continuará ineficiente. Segundo ela, o município precisa priorizar investimentos no transporte coletivo e garantir condições adequadas para que a população opte por ele.
Próximos passos
Na próxima quarta-feira (9), a CPI segue com depoimentos de autoridades municipais, incluindo a secretária de Planejamento, Catiana Sabadin, e o secretário de Infraestrutura, Marcelo Miglioli.
O relatório final da comissão, previsto para os próximos meses, poderá definir o futuro do contrato com o Consórcio Guaicurus — e influenciar diretamente o modelo de transporte coletivo de Campo Grande nos próximos anos.


