Depois de mais de uma década de paralisação, a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), em Três Lagoas, teve oficialmente retomadas as obras nesta quinta-feira (25). O anúncio foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia realizada na fábrica, onde também foram assinados os contratos com as empresas responsáveis pela conclusão do empreendimento.
Com investimento superior a R$ 5 bilhões da Petrobras, a obra deverá ser concluída entre o fim de 2028 e o início de 2029. A expectativa é de que cerca de 8 mil empregos diretos e indiretos sejam gerados durante a fase de construção.
Além da geração de empregos, o governo federal e a Petrobras apostam na unidade como estratégica para reduzir a dependência brasileira da importação de fertilizantes, fortalecer o agronegócio e contribuir para a redução dos custos da produção agrícola, refletindo no preço dos alimentos.
Lula critica paralisação da obra
Durante o discurso, o presidente afirmou que não há justificativa para uma obra que já estava praticamente pronta permanecer abandonada durante 12 anos.
"Não tem explicação para ninguém por que uma empresa dessa magnitude, que queria produzir fertilizante para ajudar no barateamento e na qualidade dos alimentos produzidos neste país, ficou parada 12 anos."
Segundo Lula, quando a construção foi interrompida, mais de 80% da estrutura já estava concluída, enquanto o país continuava importando fertilizantes a preços elevados.
"Uma coisa é você não começar uma obra porque não tem projeto ou dinheiro. Outra é começar, ter projeto, recursos, necessidade e, quando já tem mais de 80% da estrutura pronta, deixar tudo parado durante 12 anos. Enquanto isso, o Brasil pagou preços absurdos por fertilizantes importados, e quem paga essa conta é o povo brasileiro."
O presidente também criticou o fechamento de outras unidades de fertilizantes no país e afirmou que a retomada da produção nacional é uma questão estratégica.
"Muita gente nunca se preocupou porque era mais barato importar. Foi assim que fábricas foram fechadas na Bahia, em Sergipe, no Paraná, e esta obra também acabou paralisada."
Fertilizantes nacionais para reduzir preço dos alimentos
Lula destacou que o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas continua altamente dependente da importação de fertilizantes.
"O país é o segundo maior produtor de alimentos do mundo. Por que tanta irresponsabilidade de deixar uma fábrica como essa parada? Não é só pelos empregos que iria gerar, mas pela perspectiva de futuro."
Para o presidente, ampliar a produção nacional significa reduzir custos para o produtor rural e, consequentemente, contribuir para o barateamento dos alimentos que chegam à mesa da população.
"Eu ainda sonho que a gente vai ter acima de 70% de todo fertilizante que nós precisamos neste país, porque um país jamais será soberano se ele não for dono das coisas principais que ele produz."
Lula também defendeu o papel estratégico da Petrobras no desenvolvimento nacional.
"O governo não tem ingerência na Petrobras. O que eu não abro mão é de discutir estrategicamente o papel da Petrobras no Brasil."
O que será produzido na UFN3
Quando entrar em operação, a UFN3 será a maior e mais moderna fábrica de fertilizantes nitrogenados da Petrobras.
A unidade terá capacidade para produzir aproximadamente:
- 3.600 toneladas de ureia por dia;
- 2.200 toneladas de amônia por dia.
Em números anuais, a expectativa é de cerca de 1,2 milhão de toneladas de ureia e aproximadamente 70 mil toneladas de amônia, insumos essenciais para a agricultura brasileira.
A ureia é o fertilizante nitrogenado mais utilizado no país, principalmente nas lavouras de milho, cana-de-açúcar, trigo, café, arroz, algodão e outras culturas agrícolas. Já a amônia é utilizada na fabricação de fertilizantes e diversos produtos petroquímicos.
Brasil importa 85% dos fertilizantes
Hoje, aproximadamente 85% dos fertilizantes consumidos pelo Brasil são importados, segundo dados do Ministério da Agricultura.
Essa dependência deixa o país vulnerável às oscilações do mercado internacional e aos impactos provocados por conflitos geopolíticos, como ocorreu após a guerra entre Rússia e Ucrânia, quando os preços dispararam.
Com a entrada em operação da UFN3, somada às demais unidades da Petrobras, a expectativa é atender cerca de 35% da demanda nacional por fertilizantes nitrogenados.
Cinco estados serão beneficiados
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, destacou que a localização da fábrica é considerada estratégica.
Instalada em Três Lagoas, no coração do Centro-Oeste, a unidade atenderá principalmente Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Paraná e São Paulo, estados que concentram grande parte da produção agrícola brasileira.
Segundo ela, além de reduzir a dependência das importações, a fábrica diminuirá significativamente os custos logísticos.
"O que ganhamos com isso é uma brutal redução dos custos logísticos, além de maior confiabilidade no abastecimento para culturas como milho, cana-de-açúcar, café, trigo e algodão."
Magda afirmou ainda que a unidade deverá ser a mais eficiente da Petrobras.
"Por ser a unidade mais moderna, ela também terá o melhor desempenho em consumo de energia e emissões. Como a energia representa um dos maiores custos na fabricação de fertilizantes, a redução do consumo significa um produto mais barato e um projeto mais rentável do que unidades antigas."
A presidente da estatal revelou ainda que a Petrobras aprovou um programa de qualificação profissional para preparar trabalhadores que atuarão na obra.
Serão oferecidas 1,4 mil vagas em cursos de capacitação em parceria com Senai, Sesi e Institutos Federais.
Simone Tebet destaca impacto para o agro
Presente na cerimônia, a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, relembrou que acompanhou o início do projeto quando era prefeita de Três Lagoas e destacou a importância da retomada.
Segundo ela, a fábrica fortalecerá a agricultura em diversos estados brasileiros.
"Essa fábrica vai dar capacidade de produzir mais barato e colocar comida na mesa do povo brasileiro, que é o que interessa."
Uma obra marcada por paralisações
As obras da UFN3 começaram em 2011, durante o segundo mandato da então presidente Dilma Rousseff.
Em 2014, o contrato com o consórcio responsável foi encerrado por descumprimento contratual, interrompendo a construção quando cerca de 81% do empreendimento já estava concluído.
Ao longo dos anos seguintes, a Petrobras tentou vender a unidade. O grupo russo Acron chegou a negociar a compra, mas desistiu do negócio em razão de dificuldades relacionadas ao fornecimento de gás natural.
Desde então, a estrutura permaneceu abandonada, tornando-se um dos maiores empreendimentos inacabados de Mato Grosso do Sul.
A retomada foi aprovada pelo Conselho de Administração da Petrobras em 2024 e incorporada ao Plano de Negócios 2026-2030. Em março deste ano, o colegiado autorizou oficialmente o reinício das obras.
Com a assinatura dos contratos nesta quinta-feira, a expectativa é que os trabalhos sejam iniciados ainda neste mês, recolocando em andamento um dos maiores investimentos industriais do país e considerado estratégico para o fortalecimento da produção agrícola brasileira e da segurança alimentar.


