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Após captura de megatraficante, Bolívia intensifica apuração sobre corrupção policial

Prisão de Sebastián Marset desencadeia investigações internas e amplia cooperação internacional contra o crime organizado

A prisão do traficante uruguaio Sebastián Enrique Marset Cabrera, realizada no último dia 9 em Santa Cruz de la Sierra, levou autoridades bolivianas a aprofundarem investigações sobre possíveis esquemas de corrupção dentro das forças de segurança do país. Considerado um dos principais nomes do narcotráfico na América do Sul, Marset foi detido em operação da Polícia Boliviana e posteriormente entregue aos Estados Unidos.

Foragido desde 2023, o criminoso mantinha atuação em diversos países e tinha ligação com organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC), do Brasil. Mesmo escondido, ele continuava ativo nas redes sociais, onde publicava ameaças e mensagens direcionadas a rivais e autoridades.

Alems

Investigação interna e suspeitas

A detenção abriu caminho para uma apuração mais ampla sobre possíveis colaboradores dentro do aparato estatal. De acordo com informações levantadas, a operação que resultou na captura foi conduzida por um grupo restrito de agentes considerados confiáveis, após suspeitas de vazamentos e falhas em tentativas anteriores de prisão — incluindo uma ação frustrada em 2023.

O comandante-geral da Polícia Boliviana, Mirko Sokol, afirmou que há indícios de participação de agentes públicos no esquema criminoso.

“Temos informações de muita gente que colaborou com Marset. É muito provável que tenha policiais, mas também outros tipos de pessoas, principalmente de outras instituições, que garantiram colaboração e deram cobertura para algumas ações que constituem práticas delitivas. Nós vamos investigar tudo isso”, prometeu Sokol.

Ele já havia destacado anteriormente que o combate à corrupção interna seria uma das prioridades de sua gestão.

“São diferentes níveis de corrupção na instituição, níveis altos como níveis muito inferiores, mas eu conheço a grande maioria deles. Temos gente que fez da corrupção seu modo de vida. Todos conhecemos dentro da instituição a trajetória de cada um dos integrantes”, declarou o policial, que está na corporação desde 1989.

As investigações buscam identificar tanto agentes públicos quanto possíveis intermediários que teriam atuado como laranjas do grupo liderado por Marset.

Repercussão política e cooperação internacional

O caso também ganhou dimensão política na Bolívia, com discussões sobre o grau de infiltração do crime organizado em instituições do país. O ministro de Governo, Marco Antonio Oviedo, afirmou que a apuração será conduzida em várias frentes.

“Houve instrução para uma investigação ampla dada ao comandante da Polícia, ao comandante da Inteligência e ao comandante da Felcc [Fuerza Especial de la Lucha contra el Narcotráfico]. Se houve responsáveis, vão ser levados para a prisão”, afirmou.

O tema foi tratado em reunião entre o presidente boliviano, Rodrigo Paz, e o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, realizada em Brasília. Segundo Paz, o país trabalha para capturar outros grandes nomes do narcotráfico.

“Em tema de segurança, ocorreu um acontecimento extraordinário para a Bolívia. Deve ser o fato de segurança mais importante na nossa etapa democrática e é incrível como houve um reconhecimento externo mais importante que de alguns líderes, setores de opinião e organizações na Bolívia. A sociedade boliviana precisa ser mais livre do atropelo dessas organizações criminosas que geram terrorismo”, apontou Rodrigo Paz.

Além disso, Brasil e Bolívia firmaram acordos de cooperação voltados ao combate a crimes como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, tráfico de pessoas, mineração ilegal, crimes ambientais e cibernéticos.

Processo nos Estados Unidos

Após a prisão, Marset foi transferido para os Estados Unidos, onde responde a acusações relacionadas à lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de cocaína. Ele compareceu a um tribunal federal em Alexandria, no estado da Virgínia, e pode ser condenado a até 20 anos de prisão.

As investigações apontam que o traficante utilizava o sistema bancário norte-americano para movimentar recursos ilícitos, com valores que podem ter ultrapassado R$ 43,5 milhões. Durante a operação na Bolívia, também foram apreendidos bens que somam mais de US$ 15 milhões.

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