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Consórcio da Paz

há 8 meses

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Especialistas veem discurso político em fala de Riedel e outros governadores sobre combate ao crime

Criação do "Consórcio da Paz" e uso de termos como "narcoterrorismo" e "guerra às drogas" geram críticas de pesquisadores e cientistas políticos

Governadores de sete estados brasileiros anunciaram recentemente o “Consórcio da Paz”, uma iniciativa conjunta para enfrentar o crime organizado no país. O grupo, liderado pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), também conta com Eduardo Riedel (MS), Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Jorginho Mello (SC), Ronaldo Caiado (GO) e Ibaneis Rocha (DF).

A proposta foi lançada em meio às repercussões da megaoperação policial no Rio, que deixou mais de 120 mortos. No entanto, especialistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que o nome do consórcio e o vocabulário usado por alguns governadores evidenciam uma estratégia política e simbólica, mais do que técnica, na condução da segurança pública.

Alems

O sociólogo Ignacio Cano, da UERJ, criticou o nome do projeto e afirmou que ele contradiz a realidade das ações policiais. “Chamam de Consórcio da Paz, mas o que vemos é o aumento da letalidade. O discurso não combina com os resultados”, disse.

Termos e disputas discursivas

Pesquisadores também apontam o uso recorrente de expressões como “narcoterrorismo”, empregadas por governadores como Castro, Tarcísio e Zema. Para a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz, da UFF, esse tipo de linguagem mascara falhas estruturais na política de segurança.

“É uma retórica que busca justificar orçamentos maiores e menos controle sobre as ações policiais. Falar em narcoterrorismo é pedir carta branca para agir”, argumentou.

Cano complementa que o termo é incorreto do ponto de vista conceitual. “O terrorismo tem motivação política. Já o tráfico de drogas é movido por lucro, não por ideologia. Associar os dois é um erro de definição e de intenção.”

Pressões e reflexos internacionais

O debate sobre o tema também reflete influências externas. Países como Argentina e Paraguai já classificaram facções como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, e os Estados Unidos sugeriram ao governo brasileiro seguir o mesmo caminho.

Segundo Jonas Pacheco, da Rede de Observatórios da Segurança, essa aproximação tem caráter político. “Quando o Brasil adota o discurso do terrorismo, ele se alinha a uma lógica internacional que permite interferência externa sob o argumento da segurança global”, explicou.

No Congresso, o Projeto de Lei 724/25, de autoria do deputado Coronel Meira (PL-PE), pretende ampliar o conceito de terrorismo para incluir o tráfico de drogas ilícitas. A proposta ainda será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de seguir ao plenário.

A linguagem da “guerra”

Outro ponto criticado pelos especialistas é o uso do termo “guerra às drogas”, que, segundo eles, legitima práticas violentas e amplia o estigma sobre moradores de áreas periféricas.

“Quando se fala em guerra, cria-se um inimigo interno — e esse inimigo tem cor, classe e endereço”, disse Pacheco.

Jacqueline Muniz reforça que a segurança pública deve priorizar a preservação da vida: “A força não é um fim, é um meio. O Estado existe para proteger, não para exterminar.”

Ignacio Cano acrescenta que, ao normalizar o discurso de guerra, a sociedade enfraquece o controle sobre as instituições. “Quando se aceita que a polícia aja sem limites, todos estamos vulneráveis. O problema não fica restrito às favelas.”

Para os estudiosos, o uso de expressões como “narcoterrorismo” e “guerra” revela mais sobre o projeto político dos governadores do que sobre uma estratégia efetiva de segurança. “Esses discursos produzem medo e alimentam uma lógica autoritária. A insegurança, nesse contexto, vira instrumento de poder”, conclui Muniz.
 

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