“A arte. Como defini-la? Como compreendê-la? E mais importante, por que importa tanto? Simples, porque através da arte nos tornamos imortais. E todo mundo quer viver para sempre, não importa o custo”.
Ano, 1617 DC. Local, Roma. Mais precisamente, no famoso Coliseu que mesmo após a queda do império romano ainda é um local para eventos. Só que ao invés de batalhas brutais entre gladiadores agora é palco para as melhores peças de teatros dos melhores artistas da época, como o próprio Willian Shakespeare.
Porém, não é Shakespeare dirigindo a peça, mas sim um misterioso artista, cujo rosto é coberto por uma máscara de teatro sorridente e roupas vermelhas com direito a um exótico chapéu vermelho e segurando uma bengala. Mascarado este que supervisiona a montagem do cenário de sua peça enquanto aguarda pacientemente a aproximação de alguém vindo por trás.
Esse alguém é apenas um jovem ator que pensa na melhor forma de se aproximar, demonstrando uma vergonha evidente até para o mascarado, mesmo este estando de costas, obrigando o dono do espetáculo a se adiantar a tomar a iniciativa:
-Pois não?
-Hã? Oi... eu vim pelos testes, senhor...
-Greed.
Num movimento, o mascarado gira de frente para o jovem fazendo uma pose e estendendo a mão para cumpri-la:
-Senhor Greed. Ao seu dispor
O jovem o cumprimenta com muito sem jeito, até porque nem consegue esconder o quanto se sente desconfortável, e até com medo do mascarado, mesmo não sabendo do porquê. De qualquer forma, o sentimento é ignorado com as palavras do Senhor Greed:
-Então, meu jovem, por que devo escolhê-lo para protagonizar minha peça?
O jovem fica espantado com a pergunta, como se sentisse que o mascarado tivesse invadido seus pensamentos, ideia que é descartada com as rápidas palavras do próprio Greed:
-Por que essa cara? Afinal, por que um ator com seus talentos viria aqui falar com o diretor da peça? Além de que fui eu quem o convoquei.
-É claro... Desculpe, o senhor é bem... Bom, não é como os diretores com quem costumo trabalhar.
-Considero isso um elogio. E se me permite o mesmo, você não é como os atores principais com que já trabalhei.
-Entendo o que quer dizer, senhor. Não sou tão ativo como a maioria dos meus colegas, mas garanto que me transformo no palco.
-Claro que sim. Afinal, a última coisa que precisamos ser quando estamos no palco é sermos nós mesmos. Agora vamos para o que interessa, seu papel.
Como que num passe de mágica, o mascarado tira na manga um papel que por acaso é o cartaz ilustrado da peça em questão. Ao entregá-la, o ator vê que a peça é sobre a história de Caim e Abel, e imediatamente ouve do Senhor Greed:
-O que pode me dizer sobre essa história, meu caro?
Apesar de entender a pergunta, o jovem ator elabora uma resposta que não seja simplista, então após uma rápida elaboração, diz ao mascarado:
-É o primeiro assassinato da história. A segunda traição humana aos desígnios de Deus por parte de nós humanos... Irmão matando irmão por inveja, raiva e ganância.
Há um breve silêncio entre os dois após essa resposta, e conforme encara o diretor da peça que mantém uma pose e um equilíbrio de uma estátua, o jovem ator não pode deixar de perceber que mesmo por trás da máscara sorridente há um sorriso maior ainda por trás dela. Então, o senhor Greed finalmente esboça uma reação ao que ouviu:
-Excelente resposta.
Feito o comentário, o mascarado altera sua compostura e sua direção com um rápido giro, e conforme se afasta do jovem ator, diz a ele:
-Meu pessoal já está com seu figurino e falas prontas. Vista-se, decore suas falas e me encontre no palco daqui trinta minutos.
-Claro... Hã, senhor? Qual é o meu papel?
-O de Caim.
A resposta espanta o ator, o que faz o mascarado questioná-lo:
-Algum problema?
-Não. Nenhum.
Imediatamente, o jovem se afasta do intrigado Senhor Greed e mais de trinta minutos depois, ator e diretor já se encontram ensaiando a cena, mais precisamente a parte onde Caim mata Abel. Conforme o ensaio prossegue é visível o talento do jovem ator para interpretar o primeiro assassino da história, que chega até a assustar o intérprete de sua vítima.
Especialmente porque mesmo com uma faca falsa, “Caim” usa de uma agressividade com seus golpes que chega a machucar “Abel”, forçando uma pausa no ensaio e uma conversa particular com o senhor Greed, que se aproxima de maneira fria e silenciosa enquanto ouve as desculpas de seu astro:
-Desculpe, senhor Greed. Eu... me empolguei.
-Eu percebi... e adorei!
A recém surgida animação, bem como a mudança de compostura do mascarado, espanta o jovem ator que fica em silêncio para as palavras do seu chefe:
-É esse tipo de empolgação que separa uma atuação medíocre de uma atuação exemplar. É esse tipo de dedicação que o separa dos outros do seu ramo. E é esse tipo de performance que o fará imortal.
-Imortal?
Tal dúvida por parte de seu ator atiça a malicia do mascarado, que se senta do seu lado para lhe explicar:
-Existe muitas formas de imortalidade, meu caro. Algumas mais fortes do que a incapacidade de morrer. Por exemplo, a de deixar uma marca tão forte no mundo que será lembrado até o fim dos tempos. Entende meu ponto?
-Claro, senhor. É por isso que chego a me “transformar” no palco. Quero que minha atuação seja minha marca no mundo.
-E até onde você iria para deixar sua marca?
-Até onde fosse possível.
Mais uma vez, o sorriso malicioso do mascarado se torna maior que o sorriso estampado em sua máscara, fazendo se levantar rapidamente, ajeitar o casaco de suas roupas para então dizer:
-Pois bem. Irei lhe ajudar em sua ambição, então não precisa se preocupar com nada. Apenas faça o seu melhor.
Num piscar de olhos, o senhor Greed desaparece, deixando o jovem ator sozinho e observando a faca falsa em sua mão. Um longo tempo depois, chega o dia da apresentação da peça e após diversas histórias de natureza bíblica e de muita tragedia, chega o momento da apresentação de “Caim e Abel”.
Não demora muito para a cena do assassinato acontecer e espantar a todos com a performance brilhante de ambos os atores, seja na violência de “Caim” ou na forma como “Abel” implora por sua vida, com direito até sangue escorrer do esfaqueamento, gerando o aplauso de todos. Exceto das autoridades convidadas que tem uma visão privilegiada da cena, e principalmente uma visão privilegiada de sangue de verdade. Na mesma hora, o Senhor Greed lhes chama a atenção para dizer:
-Não se preocupe. É tudo parte do show.

