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Curiosidade

há 2 anos

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Preguiça

“Esparta. A menção dessa antiga cidade grega desperta imagens de um povo guerreiro que condicionava até suas crianças a serem os soldados mais mortais da Grécia. Do tipo que faria de tudo para proteger sua pátria e que vive pelo lema de morrer lutando do que viver escravizado. Bela história tão fantasiosa quanto mentirosa.

Sim, eles eram um povo guerreiro, mas não eram os melhores da Grécia, e muito menos eram essa coragem toda que diziam. O exemplo disso é que o maior feito deles na história é uma derrota. Fora o que muitos livros de história não falam é que eles se rederam para os persas e chegaram até a ajudá-los durante seu ataque a Grécia.

Sebraetec

Então, como eles conquistaram toda essa fama que ultrapassou o tempo? Propaganda, e um pouco de preguiça. E para a sorte de Esparta eu tinha um amigo especialista nos dois.”

Em Esparta, o conselho de anciões e líderes responsáveis pela política e estratégia militar da cidade-estado se reúnem para discutir uma proposta oferecida por um estranho misterioso que ainda não chegou. Tal proposta e ser causam desconfiança dos espartanos conformem cochicham entre si, o que acaba sobrando para um jovem e ainda inexperiente senador que deve explicações para seu superior hierárquico:

-Seu amigo não tem noção de horário?

-Paciência, senhor. Garanto que ele chegará. Foi o que o amigo dele garantiu...

-O que disse?

-Hã... olha, ele ali.

Por fim, todos prestam atenção para a aparição de um ser semelhante a um sátiro magricelo, só que sem as pernas de bode ou cauda, mas com um belo cavanhaque e uma cara de cansaço de quem acabou de acordar conforme boceja antes de falar:

-Foi mal o atraso minha gente, deu preguiça de levantar cedo.

Conforme se aproxima do centro do conselho arrastando um quadro, todos os membros olham incrédulos para o estranho ser chifrudo e inumano que se revelou para eles, e antes que pudessem dizer ou fazer alguma coisa, as palavras do estranho desviam seus pensamentos para o seu chamado:

-Ó, Alcides. Chega aqui.

O chamado é para o jovem senador que supostamente o conhece e que nem esconde sua cara de dúvida diante o pedido, e que antes de ir, é chamado pelo seu superior para ouvir a seguinte pergunta:

-Quem... ou melhor, o que é esse... homem?

-Podem me chamar de coach. Agora, Alcides, é pra hoje!

Dada a ordem, Alcides vai em sua direção e seu superior nem hesita ou questiona a forma como o estranho exerce sua autoridade sobre as figuras de autoridade de Esparta. Tendo se aproximando do inumano coach, ele questiona seu papel:

-Já tá ajudando. Muito bem cambada, quem aqui odeia Atenas e Tebas?

Ninguém do conselho tem coragem para responder, não porque não sentem ódio das duas maiores cidades-estados gregas, mas por desconfiança quanto ao coach que já se adianta em quebrar o silêncio que criou com palavras e com esboços em sua louça:

-Então, senhor, como posso ajudar?

-Por que essas caras? Até um cego e surdo sabe do ódio que Esparta tem dosseus vizinhos. E por que não teriam? Eles são mais ricos que vocês, mais espertos que vocês, mais fortes que vocês, mais organizados que vocês, melhor vistos que vocês e melhor do que vocês em tudo basicamente.

Se antes o silêncio criado pelo conselho era pela desconfiança agora é por uma raiva que leva a maioria a darem uma ordem de execução aos guardas presentes só com o olhar, mas antes que os executores pudessem acatar o pedido, o coach inumano prende a atenção de todos com as seguintes palavras:

-E se fosse o contrário? E se vocês fossem vistos como os melhores, os mais bravos, mais espertos, patrióticos e corajosos de toda Grécia?

A pergunta intriga o conselho a prestar ainda mais atenção as palavras do coach que faz o seguinte questionamento enquanto se aproxima de Alcides ao mesmo tempo que faz um desenho de uma figura mitológica bem conhecida em seu quadro:

-Sei o que estão pensando. Como fazer uma nação repleta de gente fracassada e desleixada como o Alcides aqui virar um Hércules do dia para noite? Não dá!

O coach dá um uma breve pausa antes de continuar o raciocínio:

-Quer dizer, até que dá, mas quem tem disposição para um trabalho desses, né minha gente? Escuta minha gente, pra vocês virarem os picas da Grécia, vocês não precisam virarem os monstrões. Tem apenas que fazer os outros pensarem que vocês são os monstrões.
Em seguida, ele começa a escrever um passo a passo em seu quadro o que deixa todos no conselho, especialmente Alcides, muito intrigados, e logo o coach explica:

-Primeiro passo, temos que melhorar a imagem de Esparta. Como fazer isso? Fácil, melhorando a imagem do povo. Como fazer isso? Mais fácil ainda, incentivo. Como incentivar? É só reforçar as vantagens que uma carreira militar pode trazer e as desvantagem que podem trazer se fugir do campo de batalha. Não to falando de matar, to falando de humilhação total. Desonra pra ti, pra tua mãe e pra tua vaca. Eu até sugiro a criação de um lema. Que tal... “Espartanos não recuam, espartanos não se rendem”. Gostaram?

Sem precisar dizer com palavras, só com suas expressões faciais, é visível o quanto o conselho gostou da ideia, o que os deixa mais intrigados para o próximo passo:

-Segundo passo, propaganda. Só incentivar o povo a acreditar nessa lorota não é o bastante, temos que convencer nossos vizinhos dessa lorota. Como fazer isso? A gente contrata a classe artística pra espalharem uns mitos maneiros da gente. Tipo, vocês têm um treinamento diferenciado, um exército mais brabo ou que a única profissão de vocês é matar e guerrear, qualquer bobagem que vier na cabeça.

Apesar das últimas palavras rudes, o conselho vê o potencial nessa artimanha e por fim, o coach inumano não tarda em explicar o próximo passo:

-Terceiro passo, ocultar as verdades. Como todo mundo aqui sabe, a mentira é uma ótima história arruinada somente pela verdade. Então, façam o possível para ocultar de Zeus e o mundo que vocês são uns frouxos, bunda moles, covardes, traidores e que se dependessem de vocês, a Grécia seria entregue ao primeiro inimigo, tipo os Persas

É visível a vergonha na cara de todo mundo do conselho, como se a ideia de traição tivesse passado pela cabeça, sendo que a Pérsia nem havia invadido a Grécia ainda a ponto de fazer um dos conselheiros perguntar:

-E... só por curiosidade, como você propõe que nós... escondemos a verdade? Tipo, se alguém pedisse nossa ajuda em uma invasão?

-Fácil. Diz que é feriado religioso.

A ideia convence e anima todo o conselho e vendo isso o coach diz:

Vocês sacam rápido. Oh, nas próximas semanas, vou trabalhar pessoalmente na imagem de Esparta. Então, relaxem e deixem tudo comigo. Só peço que assinem esses documentos nada importante aqui.

Enquanto o conselho faz fila para assinar os documentos, Alcides diz ao coach:

-Nossa, isso foi incríve

-Me diga algo que não sei.

-Bem, tem certeza de que isso vai funcionar?

-Sossega, rapá. Quando eu acabar, Esparta vai atravessar as eras como os maiores heróis da Grécia. Se brincar, vira até filme.

-O que é um filme?

-Espera pra ver, rapá. Espera pra ver

* JVC Brandão

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