Em um período de 12 meses desde o maior escândalo contábil da história corporativa brasileira, a Americanas, uma empresa quase centenária, enfrenta uma transformação drástica. Fechando uma loja a cada três dias, demitindo um quarto de sua equipe e caindo do segundo para o quinto lugar entre as empresas mais lembradas pelos consumidores, a varejista viu seu valor de mercado despencar de quase R$ 11 bilhões para R$ 785 milhões.
A varejista, que entrou em recuperação judicial logo após revelar "inconsistências contábeis" de aproximadamente R$ 20 bilhões em janeiro do ano passado, não divulgou seus resultados financeiros de 2023. Entretanto, os números de 2022, divulgados recentemente, mostram um prejuízo de quase R$ 13 bilhões, patrimônio líquido negativo de R$ 26,7 bilhões e uma dívida líquida de R$ 26,3 bilhões.
Embora a empresa afirme que conseguirá gerar caixa em 2025, especialistas em varejo entrevistados pela Folha acreditam que essa é uma tarefa praticamente impossível. "Ninguém sabe, realmente, se a antiga Americanas dava lucro", ressalta André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners. Os números do balanço de 2021 foram revisados, transformando ganhos de R$ 544 milhões em um prejuízo de R$ 6,2 bilhões.
Com a reestruturação, a "nova Americanas" concentra-se em produtos de conveniência, como guloseimas, itens de limpeza e brinquedos, deixando produtos de maior valor agregado para varejistas parceiros de seu marketplace. No entanto, a confiança dos consumidores no site foi abalada pelos escândalos, impactando diretamente as vendas.
Analistas alertam que a redução de lojas, somando 126 fechamentos em um ano, terá um impacto significativo não apenas para os funcionários, mas também para os fornecedores, que perdem pontos de venda e visibilidade de produtos. "Essa velocidade no fechamento de lojas vai ser muito maior a partir de agora", prevê Pimentel.
O plano de recuperação judicial, aprovado em dezembro, prevê um aumento de capital via emissões de novas ações. Com R$ 10 bilhões ainda a serem aportados pelos principais acionistas, a Americanas busca uma reconstrução operacional e financeira. A empresa planeja manter-se como o varejista mais diverso do país, com presença nacional, um marketplace robusto e proximidade com seus clientes. (FOLHAPRESS)


