“O que as moscas e um glutão têm em comum? Simples, o quão nojento e baixo eles podem chegar para preencher sua fome. E no caso do glutão, a fome dele nem sempre se trata apenas de comer muito, em diversas ocasiões pode se tratar da satisfação por um prazer puramente egoísta.
Um exemplo pode ser encontrado na Roma antiga, ouve um período sombrio para não dizer caótico sob o domínio de Calígula, um dos imperadores mais nefastos que já governou o antigo império. Defini-lo somente como um sádico, insano, torturador ainda seria pouco para descrevê-lo. As diversas atrocidades e atos hedonistas que serviam apenas para alimentar sua sede de sangue e prazer ajudaram a criar todo uma gama de histórias e mistérios sobre sua figura.
Como esperado, não seria surpresa algumas dessas histórias e mistérios terem um teor sobrenatural. Numa delas, dizia que demônios moviam suas ações, demônios esses que assumiam diversas formas. De pessoas a animais. O que eles não sabiam é a Calígula era depravado até para o mais baixo dos diabos. Era o que um deles dizia a mim”.
No quarto do imperador, Calígula acorda em sua cama com um zumbido de uma mosca em seu ouvido. Zumbido esse que se transforma numa voz humana que o chama:
Acorda pra vida, meu coroa. Já passou do meio-dia.
-Hã?
O imperador insano de Roma tem a visão de uma mosca voando em sua cara, o que apenas o faz dizer sem nenhuma surpresa em sua voz:
-Ah, é só você.
-Também to feliz em te ver. Agora levanta que Zeus ajuda quem cedo madruga.
-É Jupiter. -Quem liga? No final é tudo a mesma coisa.
O imperador acaba concordando com o ponto, conforme dá nos ombros e logo depois sai da cama pisando nas mulheres ao seu lado sem dar a mínima para elas, a ponto de fazer a mosca dizer:
-Pega leve no chinelo aí. Já bastou o trato de ontem... Ô meu coroa, essas não são suas irmãs?
-São.
-Uau, isso é o que eles chamam de amor de irmão. Então, o que temos pra hoje?
-O casamento do meu primo. Bom, eu acho que ele é meu primo.
-Uh, adoro casamentos. Gente bonita e comida boa pra todo o lado. Do jeito que eu gosto.
Como de praxe, Calígula forçava seus generais, conselheiros e parentes a submeterem a noite de núpcias de suas esposas ao próprio imperador, obrigado os maridos assistirem. Histórias diziam que para equilibrar as coisas, ele estuprava os maridos também. Após o término do casamento, a mosca diz ao imperador:
-Meu coroa, você sabe como deixar sua marca no casório. E agora? Bora trampar?
-Já estamos “trampando”.
-Uau, imagina se tivesse a lazer.
Após um longo tempo de atos tão hediondos que geram calafrios e espantos na mosca, os dois companheiros são escoltados até o Coliseu e no caminho o inseto falante pergunta a Calígula
-Perguntinha rápida, tá satisfeito?
-Nunca. -Imaginei. Próxima pergunta, tu quer morrer?
-Não.
-Então tu espera ganhar outra coisa tratando todo mundo como lixo para sua própria satisfação pessoal?
-Satisfação.
-Bom saber. Ah, só pra avisar, os teus soldados vão te matar assim que virarmos ali na esquina.
(*)JVC Brandão


