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INDÚSTRIA VERDE

há 8 meses

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Nada se perde: a revolução silenciosa da indústria de reciclagem animal em Mato Grosso do Sul

Com base em inovação, sustentabilidade e bioeconomia, Mato Grosso do Sul desponta como referência nacional ao transformar resíduos do abate animal em energia limpa, renda e novos produtos industriais

Quando o resíduo ganha valor e sua matéria-prima vira energia, nasce uma nova fronteira da sustentabilidade: a indústria de reciclagem animal. A sustentabilidade deixou de ser promessa para se tornar exigência global. Nesse cenário, o setor desponta como um dos mais inovadores e estratégicos da bioeconomia brasileira.

Ao transformar toneladas de resíduos do abate animal em insumos, biocombustíveis e energia limpa, ele mostra que o desenvolvimento industrial pode, e deve, caminhar lado a lado com a preservação ambiental.

Em Mato Grosso do Sul, essa cadeia vem ganhando força e se consolidando como um exemplo concreto de bioeconomia, conectando o campo, a indústria e o meio ambiente em um ciclo virtuoso que gera empregos, renda e sustentabilidade.

Alems

Um setor que move o Brasil

Em 2024, a indústria de reciclagem animal movimentou R$ 27,04 bilhões no Brasil, segundo o Anuário 2024 da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA). O país conta atualmente com 496 indústrias registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), conhecidas como Fabricantes de Ingredientes de Origem Animal (FIOAs). Dessas, 270 são associadas à ABRA e representam 69 grupos empresariais que impulsionam um dos segmentos mais relevantes da chamada “indústria verde” brasileira.

Essas indústrias processaram 13,6 milhões de toneladas de resíduos animais no último ano, transformando o que seria um passivo ambiental em produtos de alto valor, como farinhas, gorduras, hemoderivados, palatabilizantes e proteínas hidrolisadas, todos de origem animal, utilizados como ingredientes para rações e gorduras para biocombustíveis.

Pedro Bittar, presidente do Conselho Diretivo da ABRA.
(Divulgação)

No mercado interno, 51% da produção é destinada à nutrição animal, 17% ao pet food, 13% ao biodiesel e 6% à saboaria.

 

“Cada número que apresentamos reflete o trabalho de milhares de pessoas e empresas que acreditam no poder transformador da reciclagem animal. Nosso papel é garantir que nada se perca e que cada resíduo possa voltar à sociedade em forma de alimento, energia e desenvolvimento”, afirma Pedro Bittar, presidente do Conselho Diretivo da ABRA.
 

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Força industrial e sustentabilidade em Mato Grosso do Sul

Em Mato Grosso do Sul, o segmento é representado por 28 indústrias ativas que juntas processaram, apenas em setembro de 2025, 81 mil toneladas de resíduos (64.190 toneladas de bovinos, 7.243 de suínos e 9.883 de aves). O Estado abriga 20 plantas associadas à ABRA, pertencentes a grupos como Aurora, Buriti, Fasa, Hemoprot, JBS, Levo, LPX, Minerva, Naturafrig e Seara.

Essas empresas formam uma rede integrada com frigoríficos, curtumes, açougues e supermercados, coletando diariamente materiais que antes teriam como destino final os aterros sanitários.

Robson Del Casale, diretor de Sustentabilidade da Fiems. (Divulgação)

Para a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (FIEMS), o avanço dessa cadeia é reflexo de um movimento mais amplo de transição verde que vem reposicionando o Estado no cenário nacional.

“A reciclagem animal é um exemplo concreto de economia circular aplicada à indústria. Assim como acontece com o reaproveitamento de materiais sólidos, o resíduo orgânico também pode voltar a ser um novo produto. O sistema industrial sul-mato-grossense vem absorvendo essa lógica e demonstrando que é possível gerar riqueza preservando o meio ambiente”, afirma Robson Del Casale, diretor de Sustentabilidade da FIEMS.

A entidade atua como elo entre indústria, governo e setor produtivo, desenvolvendo políticas e programas voltados à inovação, eficiência energética e sustentabilidade industrial.

 “Quando uma cadeia como a frigorífica consegue aproveitar quase 100% do animal, estamos falando de um salto civilizatório. É a indústria se tornando vetor direto de sustentabilidade”, complementa Del Casale.

Da gordura ao combustível limpo

Entre os protagonistas desse movimento está a LPX Industrial, sediada em Campo Grande. Criada em 2012, a empresa é responsável por cerca de 35% da coleta de resíduos do abate animal no Estado e vem se destacando por aliar eficiência produtiva, responsabilidade ambiental e inovação tecnológica.

“A LPX exerce um papel fundamental na reciclagem animal, porque quando deixamos de coletar os resíduos, toda a cadeia sofre. Frigoríficos e açougues ficam comprometidos sanitariamente, e isso impacta o consumidor e o meio ambiente. Nosso trabalho impede que toneladas de restos orgânicos cheguem aos aterros e contaminem o solo e a água”, explica Fernando Peró, diretor-presidente da empresa.

Para Peró, a reciclagem animal é um dos segmentos mais promissores da nova indústria verde, por transformar o que antes era rejeito em riqueza.

 “O que antes era lixo sem valor hoje é insumo nobre. Açougues, mercados e pequenos estabelecimentos lucram com a venda de ossos, gordura e aparas de carne. Em muitos casos, é essa renda que garante a sobrevivência do comércio local. O impacto econômico é direto e positivo.”

A LPX processa cerca de 4,5 mil toneladas de resíduos por mês, operando com caminhões refrigerados e selados, o que reduz odores e riscos sanitários. O sistema de coleta é digitalizado e conta com um aplicativo próprio que registra as entregas feitas pelos fornecedores e disponibiliza o Certificado de Destinação Final (CDF), documento que comprova que o material foi encaminhado a uma empresa habilitada pelo município para receber esse tipo de resíduo.

Fernando Peró, diretor-presidente da LPX. (Divulgação)

“Quando começamos, o setor era muito precário. Caminhões abertos, coleta manual, ausência de controle. Profissionalizamos a operação, investimos em tecnologia e criamos um sistema de rastreabilidade e certificação. Hoje, nossos clientes têm controle sobre o que entregam e acesso ao certificado de destinação final, com transparência e segurança”, relata Peró.

Certificações, energia limpa e novos projetos

A empresa possui certificação ISO 9001 e se prepara para obter a ISO de gestão de resíduos, além de realizar o inventário de emissões de carbono com o objetivo de alcançar o carbono neutro.

A matriz energética também passa por transição. 60% será migrada para energia solar, enquanto o restante permanecerá com energia térmica a gás natural. Na nova planta industrial em construção, em uma área de 10 mil metros quadrados em Campo Grande, a LPX instalará uma caldeira movida a biomassa, eliminando o uso de lenha nativa.

O executivo ressalta ainda que, após o processamento, parte do material se transforma em sebo bovino, insumo utilizado na produção de biodiesel, e que esse é um dos próximos passos da empresa em sua estratégia de sustentabilidade.

“Queremos fechar o ciclo de sustentabilidade. Já estudamos enviar o sebo bovino para a produção de biodiesel e depois abastecer nossa própria frota com esse combustível. Isso significa transformar o resíduo em energia que move a própria empresa. O sebo bovino é um insumo do biodiesel, e esse é o exemplo máximo de bioeconomia circular”, afirma Peró.

Além disso, a LPX projeta a renovação da frota com veículos híbridos, ampliando a redução de emissões.

“Estamos mirando o futuro da indústria 4.0, onde sustentabilidade e automação caminham juntas. O consumidor, o mercado e o planeta exigem isso de nós.”

Inovação, capacitação e o papel da Fiems e do SENAI

A Fiems tem sido essencial na modernização do setor. Por meio do SENAI, a federação mantém projetos de pesquisa aplicada e capacitação profissional em parceria com a ABRA e as indústrias do segmento. Entre os projetos, destacam-se: “Novas possibilidades de uso das farinhas de origem animal”, que mapeou novas aplicações industriais da agricultura à bioenergia, e “Visão 2045”, que traça estratégias para o futuro da bioeconomia.

A ABRA promove capacitação técnica por meio dos cursos de Operador de Processamento e do EJA Industrial, realizados em parceria com o SENAI. Além disso, mantém iniciativas voltadas à qualificação e à internacionalização do setor, como o AATQ (ABRA que Aqui Tem Qualidade), o ABRA Export e os cursos de E-commerce e Análise de Dados, desenvolvidos em conjunto com o projeto setorial Brazilian Renderers, em parceria com a Apex-Brasil.

Essas iniciativas consolidam o tripé ESG (ambiental, social e de governança) dentro da indústria sul-mato-grossense, garantindo rastreabilidade, segurança alimentar e formação de mão de obra qualificada.

Benefícios ambientais que ultrapassam fronteiras

O impacto ambiental é expressivo. A reciclagem animal processa 100% dos resíduos que coleta, recupera água e gera energia renovável. A gordura animal representa 8,39% do biodiesel produzido no país, reconhecida pelo RenovaBio como insumo carbono zero.

A cada dois quilos de resíduo processado, um litro de água é recuperado, reduzindo a pressão sobre rios e aquíferos.

“Sem a reciclagem animal, o Brasil teria um passivo ambiental incalculável. Estaríamos sobrecarregando aterros, contaminando solo e lençóis freáticos e desperdiçando matéria-prima valiosa. Nosso trabalho evita tudo isso e ainda gera valor”, afirma Bittar.


Quando o resíduo vira solução

A engrenagem da reciclagem animal só funciona porque conecta diferentes elos da cadeia produtiva — do frigorífico ao meio ambiente. Para empresas do setor de abate e desossa, como a RKO Alimentos, a parceria com as indústrias de reciclagem representa não apenas uma alternativa sustentável, mas também uma resposta prática a um desafio diário: o destino dos resíduos de origem animal.

“A minha parceria com a LPX é muito antiga, desde 2014, se não me engano. Logo quando eles abriram, desde que a gente abriu a indústria de abate e desossa no Mato Grosso do Sul, a RKO Alimentos é parceira deles há muitos anos. Nunca precisamos jogar para aterro, nada, graças à parceria que nós temos com a LPX”, explica Rodrigo Kalinovski, CEO da RKO Alimentos.

Ele conta que a rotina de coleta diária feita pela empresa parceira garante um destino correto para toneladas de resíduos gerados durante o processo industrial — algo que seria inviável para o setor lidar sozinho.

“Esse resíduo de ossos, restos animais é todo coletado por eles diariamente na nossa empresa. Isso nos ajuda a resolver um problema que seria descartar esse material em alguma terra, e o volume é grande. As indústrias de reciclagem animal dão uma ajuda muito grande para nós”, completa.

Do outro lado dessa cadeia, o meio ambiente também é beneficiado. O aproveitamento integral dos resíduos reduz impactos e transforma o que antes seria um passivo em matéria-prima para novos produtos.

Para Thaís Caramori, diretora de Desenvolvimento do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul), essa é uma das práticas mais concretas de economia circular em operação no Estado.

“Do ponto de vista ambiental, o aproveitamento de resíduos tem um papel muito importante. Ele resolve um problema para a indústria, porque garante a destinação adequada de materiais como sangue, buchada, ossos, couro e resíduos de graxaria, que antes seriam descartados”, afirma.

Segundo ela, o processo dá origem a uma nova cadeia de valor — e reforça o compromisso do setor produtivo com a sustentabilidade.

Thaís Caramori, diretora de desenvolvimento do Imasul. (Divulgação)

 

“Além disso, esses resíduos passam a ter uma nova utilidade, transformando-se em subprodutos para a fabricação de adubos, rações, biocombustíveis, entre outros. Essa prática evita a extração de novos recursos naturais e contribui diretamente para a redução do consumo de água e energia. É um exemplo claro de como a sustentabilidade pode caminhar junto com a produção.”



Expansão internacional e os próximos passos da indústria

Segundo a ABRA, o horizonte da reciclagem animal brasileira está dividido em duas fases estratégicas. Entre 2025 e 2030, a gordura animal deverá se consolidar como matéria-prima essencial para o biodiesel, fortalecendo a transição energética e firmando contratos de longo prazo com o setor de bioenergia.

A partir de 2030 até 2035, o setor tende a entrar em uma fase de diversificação, com a produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e Diesel Verde (HVO) ganhando protagonismo, além da criação de biofertilizantes que substituem insumos químicos e da ampliação do uso das farinhas em setores como agricultura, nutrição animal e bioenergia.

“Seguimos expandindo com a abertura de novos mercados e clientes internacionais, consolidando o país como referência em economia circular, inovação e sustentabilidade”, destacou a associação.

A ABRA reforça que o Brasil já figura entre os líderes mundiais, ocupando o quarto lugar em exportações de farinhas e o terceiro em gorduras animais, com perspectivas de novos acordos internacionais em curso, especialmente com México, Vietnã e China, que recentemente habilitou mais de 50 plantas brasileiras para exportação.

“Essas projeções confirmam que a reciclagem animal é mais do que um elo produtivo — é um vetor estratégico da bioeconomia circular e da transição energética global”, afirma a entidade.


Do óleo de cozinha à indústria limpa

O desafio da reciclagem não está apenas nas fábricas, mas também nas casas. Estima-se que, em Mato Grosso do Sul, 8,3 milhões de litros de óleo de cozinha sejam descartados por ano, sendo 5,7 milhões de forma inadequada. No Brasil, menos de 10% do óleo usado é reciclado, segundo a Abiove (Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais).

“Além dos resíduos animais, a LPX também recebe óleo de cozinha usado. A empresa funciona como ponto de coleta para quem deseja descartar o produto corretamente. Esse material é destinado ao reaproveitamento industrial e deixa de ir para o ralo ou para os rios, evitando contaminação”, explica Peró.

Programas apoiados pela Fiems e por empresas do setor incentivam a criação de pontos de coleta e campanhas educativas. Um litro de óleo pode contaminar até 25 mil litros de água, e pequenas ações, como armazenar o óleo usado em garrafas PET e entregar para reciclagem, já fazem grande diferença na preservação ambiental.


O futuro já chegou

A indústria sul-mato-grossense da reciclagem animal simboliza o que a Fiems chama de Nova Indústria Verde, moderna, eficiente e protagonista da transição energética nacional. Da gordura ao biocombustível, do osso à proteína, nada se perde, tudo se transforma.

“Estamos construindo uma nova fase da indústria, mais limpa, mais inteligente e mais humana. O que antes era resíduo hoje é fonte de renda, energia e esperança. Essa é a melhor tradução do que fazemos”, conclui Fernando Peró.

Mato Grosso do Sul se consolida, assim, como um laboratório vivo da economia circular brasileira, onde inovação, sustentabilidade e tecnologia caminham lado a lado. O Estado mostra que é possível unir crescimento econômico e preservação ambiental, transformando desafios em oportunidades e reafirmando seu protagonismo na indústria verde do futuro.

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