O grupo empresarial responsável pela Malha Oeste — trecho ferroviário de aproximadamente 750 quilômetros entre Três Lagoas e Corumbá, atualmente em estado de abandono — continua obtendo lucros expressivos em Mato Grosso do Sul. Segundo balanço financeiro divulgado nesta terça-feira (14), a usina da Raízen em Caarapó, controlada pelo Grupo Cosan, encerrou a última safra com lucro líquido de R$ 159,2 milhões, o equivalente a R$ 435 mil por dia.
Apesar do alto rendimento, nenhuma parte desse valor é destinada à revitalização da ferrovia, que segue sucateada. A Raízen, produtora de etanol e açúcar, é uma das empresas do grupo comandado pelo empresário Rubens Ometto, que também é o controlador da Rumo Logística, concessionária responsável pela malha ferroviária em questão.
O lucro divulgado é referente ao período de março de 2024 a março de 2025, seguindo o calendário agrícola adotado pelo setor sucroenergético. Além da unidade de Caarapó, o grupo controlava até recentemente outras duas usinas no município de Rio Brilhante, vendidas em agosto para a Cocal Agroindústria, empresa tradicional no setor e de propriedade da família Garms. As duas plantas industriais, com capacidade conjunta de moer até 6 milhões de toneladas de cana por ano, foram negociadas por R$ 1,543 bilhão.
A venda das usinas frustrou a expectativa da Atvos, que pretendia expandir sua atuação em Mato Grosso do Sul — onde já opera três outras unidades — e era considerada uma possível compradora. Com a transação, a Raízen passou a operar exclusivamente a planta de Caarapó, que no ano anterior já havia apresentado lucro de R$ 156 milhões. Em julho, os acionistas da empresa receberam R$ 82 milhões em dividendos.
Especialistas apontam que, mesmo que parte desses dividendos fosse direcionada à ferrovia, o valor seria insuficiente para revitalizar a Malha Oeste. No entanto, poderia cobrir as 74 multas aplicadas pela ANTT à Rumo nos últimos três anos, motivadas por abandono da faixa de domínio, falta de manutenção de trilhos e prédios, entre outras infrações.
O Grupo Cosan assumiu a ferrovia em 2015, quando a Rumo Logística incorporou a ALL, antiga responsável pela operação. À época, a linha férrea já apresentava sinais de degradação, mas ainda funcionava parcialmente.
Em busca de uma solução, o Ministério dos Transportes trabalha em uma nova modelagem de concessão, prevista para fevereiro de 2026. A proposta de um acordo amigável com a atual concessionária foi descartada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). O novo projeto foi confirmado pelo governador Eduardo Riedel (PP), após reunião com o ministro dos Transportes, Renan Filho.
“O ministro me garantiu que haverá uma nova modelagem para a ferrovia”, declarou Riedel, lembrando que o atual contrato com a Rumo vence em julho de 2026, o que obrigará o governo federal a realizar nova licitação do trecho.


