O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou nesta quinta-feira (25) que a Receita Federal irá criar uma delegacia especializada no combate a crimes organizados ligados ao sistema financeiro. A iniciativa surge como resposta à crescente complexidade das fraudes fiscais e econômicas, em especial após o desdobramento da Operação Spare, que revelou uma estrutura criminosa de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis com atuação há mais de 20 anos em São Paulo.
A nova unidade da Receita Federal será formada por servidores dedicados exclusivamente à investigação e fiscalização de esquemas financeiros estruturados com o objetivo de sonegação e ocultação de patrimônio. O modelo segue o que já vem sendo desenvolvido desde 2023, com a criação de núcleos antifraude dentro da Receita.
“Vamos estruturar uma delegacia da Receita Federal com equipes fixas e especializadas em investigações complexas. Essa iniciativa se torna um legado importante e necessário, com impacto direto na arrecadação, na concorrência justa e na proteção do orçamento público”, afirmou Haddad em coletiva à imprensa.
Desdobramento da Operação Spare
O anúncio ocorreu após a deflagração da quarta fase da Operação Spare, que teve como alvo um dos principais articuladores de uma organização criminosa responsável por movimentar bilhões em transações suspeitas no estado de São Paulo. A operação é um desdobramento da “Carbono Oculto”, realizada em agosto, e investiga a lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis, redes de franquias, motéis e empreendimentos imobiliários.
A Receita Federal identificou ao menos 267 postos ainda em atividade, que entre 2020 e 2024 movimentaram mais de R$ 4,5 bilhões, mas recolheram apenas R$ 4,5 milhões em tributos federais — cerca de 0,1% do valor, muito abaixo da média setorial.
Além disso, foi detectada a existência de uma administradora de postos que sozinha movimentou R$ 540 milhões no período, com indícios de irregularidades. O esquema envolvia o uso de empresas de fachada e o controle concentrado de cerca de 400 estabelecimentos por um único prestador de serviços, apontado como líder do grupo.
Operação conjunta com órgãos estaduais e federais
A ação desta quinta contou com a participação de 64 servidores da Receita Federal, 28 integrantes do Ministério Público de São Paulo (Gaeco), além de agentes da Secretaria da Fazenda Estadual e cerca de 100 policiais militares. Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão nas cidades de São Paulo, Santo André, Barueri, Bertioga, Campos do Jordão e Osasco.
Segundo o ministro, a criação de estruturas artificiais para acobertar atividades ilegais impacta profundamente a economia real. “Essas fraudes afetam diretamente a concorrência, os consumidores, a arrecadação e os investimentos públicos. Por isso, é essencial que a Receita esteja preparada para reagir de forma técnica, coordenada e permanente”, disse Haddad.
Combate permanente à lavagem de dinheiro
Com a criação da nova delegacia, o governo espera ampliar a capacidade de detecção e repressão de crimes financeiros de alta complexidade. A proposta é que essa estrutura funcione independentemente de gestões, como um braço fixo da Receita Federal voltado à proteção do sistema tributário e à integridade econômica do país.
Segundo o ministro, as investigações mostram como atividades aparentemente lícitas podem ser utilizadas como fachada para esquemas de lavagem de dinheiro. “É por meio desses braços ‘legais’ que os criminosos inserem os recursos ilícitos na economia, prejudicando o funcionamento saudável dos setores produtivos”, completou Haddad.


