O Ministério das Cidades pretende expandir a atuação do programa Minha Casa, Minha Vida – Cidades para o chamado Vale da Celulose, no interior de Mato Grosso do Sul, com o objetivo de amenizar o crescente déficit habitacional causado pela rápida urbanização da região. Embora não tenha detalhado a previsão orçamentária, a proposta inclui parcerias entre o governo federal, estados, municípios e parlamentares, utilizando recursos de emendas parlamentares.
Incentivos e subsídios
A modalidade oferece condições facilitadas de financiamento, incluindo juros reduzidos e um subsídio federal de até R$ 55 mil por unidade habitacional. Esse valor pode ser ampliado com a cessão de terrenos pelas prefeituras ou aportes adicionais de estados e municípios. Também é possível que entidades privadas e construtoras contribuam para complementar o valor destinado às famílias.
Crescimento industrial e pressão por moradia
Com a instalação de grandes empresas de papel e celulose, como a Suzano, Arauco e Bracell, o Vale da Celulose passou por uma intensa migração de trabalhadores, o que desequilibrou a relação entre oferta e demanda de imóveis. Isso inflacionou os preços de venda e aluguel, especialmente em cidades como Ribas do Rio Pardo, que sozinho registra um déficit estimado de 2 mil moradias.
Impacto financeiro e números do programa
Relançado em 2023 como principal política habitacional do país, o Minha Casa, Minha Vida já movimentou R$ 592 milhões em financiamentos imobiliários só no Vale da Celulose. Ao todo, 4.054 unidades habitacionais foram entregues ou contratadas na região leste do Estado, com um investimento de cerca de R$ 70 milhões do governo federal.
Atualmente, outras 572 unidades estão em fase de seleção para projetos com subsídio, e 302 novas moradias estão aprovadas para contratação, somando R$ 45,9 milhões em investimentos. A execução das obras depende do cumprimento das etapas legais por parte das prefeituras, construtoras e entidades organizadoras, sob acompanhamento da Caixa Econômica Federal.
Contexto nacional e metas
Em todo o Brasil, o programa já contratou cerca de 1,72 milhão de moradias desde 2023 e tem como meta alcançar 3 milhões até 2026. As linhas subsidiadas atendem famílias com renda bruta de até R$ 2.850, enquanto as linhas financiadas são voltadas a famílias com renda de até R$ 12 mil mensais.
Debate no Senado
Diante da situação, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS) articulou uma audiência pública no Senado, aprovada recentemente, para discutir os desafios habitacionais e sociais da região. O encontro, previsto para ocorrer entre o final de setembro e início de outubro, deve reunir prefeitos, representantes do governo federal, empresários, especialistas e lideranças comunitárias.
“O crescimento da celulose é positivo, mas é necessário garantir que os municípios acompanhem esse avanço com infraestrutura, saúde, educação e moradia”, afirmou o senador. Para ele, o desenvolvimento econômico deve caminhar lado a lado com a inclusão social: “Não se pode construir um modelo sem escutar quem vive na região”.
Ribas do Rio Pardo: exemplo do desafio
Entre os municípios mais afetados está Ribas do Rio Pardo, que em 2023 recebeu a maior fábrica de celulose do mundo, da Suzano, com produção anual de 2,55 milhões de toneladas. Atualmente, a planta gera 3 mil empregos diretos, mas durante a construção chegou a empregar 10 mil trabalhadores.
O prefeito Roberson Luiz Moreira destaca que a cidade enfrenta um grave problema de moradia e defende políticas públicas específicas para a região. “Precisamos de, no mínimo, 500 novas casas por ano para equilibrar a demanda. O crescimento econômico só será sustentável se vier acompanhado de inclusão e qualidade de vida”, afirmou.
Perspectivas para o setor
A expectativa é que o setor de celulose continue em franca expansão. Estimativas da consultoria Falconi apontam que a produção em Mato Grosso do Sul deve ultrapassar 11 milhões de toneladas nos próximos cinco anos. O investimento público e privado previsto até 2030 ultrapassa R$ 90 bilhões, com a geração de cerca de 100 mil novos empregos até 2028.
Essa transformação está consolidando o leste do estado como o maior polo de celulose do mundo, mas também impõe desafios urgentes às cidades envolvidas — desafios que agora entram no radar das políticas públicas federais.


