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há 10 meses

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IPTU em Campo Grande: PL "cheque em branco" e falhas de cálculo geram controvérsia

Audiência pública revela distorções de até 16 vezes entre imóveis semelhantes; projeto da Prefeitura permite reajuste anual sem aval da Câmara

Um estudo técnico do Núcleo de Pesquisa em Justiça Tributária (NUPERJ) revelou falhas significativas na cobrança do IPTU em Campo Grande, com valores de imóveis semelhantes chegando a diferir até 16 vezes entre bairros próximos. Entre os problemas apontados estão cálculo antecipado sobre construções ainda em andamento, cobrança sobre imóveis rurais dentro da cidade e ausência de critérios claros de atualização da base de cálculo. Esses erros provocam insegurança jurídica e prejudicam a justiça fiscal na Capital.

Para debater essas distorções e a proposta de mudanças na legislação, a Câmara Municipal de Campo Grande realizou, na sexta-feira (29), uma audiência pública envolvendo vereadores, representantes do setor imobiliário, especialistas e moradores. O foco principal foi o Projeto de Lei Complementar nº 7/2025, que altera regras do IPTU e permite que o Executivo atualize anualmente o valor venal dos imóveis sem passar pelo crivo da Câmara — um mecanismo que críticos chamam de “cheque em branco”.

Alems

O artigo 148-D do projeto é o ponto mais sensível. Basta um relatório técnico publicado no Diário Oficial para que a correção passe a valer. Para especialistas, isso configura um “cheque em branco”, abrindo margem para aumentos automáticos e falta de debate público.

“Se o Executivo pode atualizar por decreto, o contribuinte fica sem garantia de debate”, alertou Renato Perez, da Associação Brasileira do Mercado Imobiliário (ABMI), durante a audiência. Ele destacou que a crítica não é contra reajustes monetários, mas sim contra a forma proposta. “Todo e qualquer aumento real de IPTU deve obrigatoriamente passar pelo crivo desta Casa de leis”, afirmou.

Falhas de cálculo e disparidades

Um estudo técnico do Núcleo de Pesquisa em Justiça Tributária (NUPERJ) apresentado na audiência revelou distorções significativas nos valores cobrados. Em bairros como Lagoa e Vila Fernanda, imóveis semelhantes chegam a ter valores do IPTU até 14 vezes diferentes, enquanto em outras regiões, como Moreninha, Nasser e Núcleo Industrial, as variações alcançam 16 vezes.

Além disso, o levantamento apontou problemas de tributação antecipada, cobrando o imposto sobre imóveis em construção antes da emissão do habite-se, e casos de imóveis rurais dentro do perímetro urbano sendo tributados como urbanos, contrariando a legislação do ITR (Imposto Territorial Rural).

“O sistema atual compromete a confiança dos contribuintes e a justiça na arrecadação”, avalia o NUPERJ. “É urgente revisar os critérios de avaliação com transparência e proporcionalidade, respeitando a realidade dos imóveis.”

Propostas e emendas para equilíbrio fiscal

Diante das críticas, o vereador André Salineiro (PL) apresentou emendas ao projeto, buscando evitar aumento injusto do IPTU. Entre as mudanças propostas estão:

  • Limitar a atualização anual da base de cálculo à publicação de relatório técnico oficial e apresentação pública na Câmara;
  • Garantir direito de defesa antes de qualquer majoração do imposto;
  • Ajustar a definição de “edificação tributável” para incluir construções comerciais, industriais, de serviços e institucionais que ocupem menos de 10% do terreno;
  • Prorrogar de 3 para 7 anos o prazo para loteamentos fechados pagarem alíquota de 1% do IPTU.

“Estamos defendendo o contribuinte, garantindo que o imposto seja aplicado de forma responsável e equilibrada, sem sufocar famílias nem desestimular o setor imobiliário, que é estratégico para o desenvolvimento da Capital”, disse Salineiro.

Aspecto jurídico e institucional

Especialistas jurídicos reforçam que a atualização automática por decreto pode ser inconstitucional. O advogado Tarcísio Faustino Barbosa lembra a decisão do Supremo Tribunal Federal (Tema 741), segundo a qual aumentos reais de tributos só podem ocorrer por lei aprovada pelo Legislativo.

“Qualquer correção monetária baseada em índice oficial de inflação pode ser feita pelo Executivo, mas o aumento real precisa do aval da Câmara”, explica Barbosa.

Transparência e segurança jurídica

Para a prefeitura, a proposta tem caráter técnico e urbanístico, com o objetivo de padronizar critérios de edificabilidade e equilibrar a arrecadação. A auditora fiscal Ana Paula Matos admitiu que existem divergências entre imóveis vizinhos e defendeu atualizações “de forma técnica e transparente”.

“Estamos amarrados pela legislação, mas vamos promover recomposição da base de cálculo com pesquisa de mercado”, afirmou Ana Paula.

Setor imobiliário alerta para impactos econômicos

Representantes do setor imobiliário e da construção civil reforçam que a insegurança jurídica e o aumento excessivo do IPTU podem afetar investimentos, empregos e o crescimento da cidade.

“O setor é a galinha dos ovos de ouro das cidades. Quando pressionado por tributos e falta de previsibilidade, os investimentos recuam, e com eles empregos e arrecadação legítima”, afirma Simone Leal, vice-presidente do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis (Creci-MS).

Próximos passos

O projeto segue em tramitação e ainda não há consenso sobre o artigo 148-D. A votação dependerá da análise das emendas e do debate com especialistas e a população. Enquanto isso, contribuintes, vereadores e entidades acompanham atentamente as discussões, conscientes de que as decisões podem alterar de forma significativa a forma como os impostos urbanos são cobrados em Campo Grande.

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