Mato Grosso do Sul registrou, somente em 2023, a morte de 276 bebês durante a gestação, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES/MS). Isso representa uma taxa de 9,45 natimortos a cada mil nascidos vivos — índice semelhante à média nacional e muito superior ao de países desenvolvidos, onde varia entre 2 e 5 por mil. Campo Grande concentrou o maior número de casos: 80 registros ao longo do ano.
A maioria das ocorrências no estado envolveu partos com 28 semanas de gestação ou mais, ou seja, perdas tardias que geram ainda mais dor emocional às famílias. Os dados reforçam o alerta para uma tragédia silenciosa e ainda pouco discutida: a morte fetal.
O tema ganhou repercussão nacional nesta semana com a perda gestacional de duas figuras públicas: a apresentadora Tati Machado e a humorista Micheli Machado. Ambas perderam seus bebês na fase final da gravidez, o que trouxe à tona uma discussão urgente sobre prevenção, acolhimento e luto.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é considerado natimorto o bebê que nasce sem sinais vitais a partir da 28ª semana de gestação. Em 2020, o mundo registrou 2 milhões de casos — 84% deles em países de baixa e média renda, como o Brasil.
As causas e a prevenção
O obstetra Manoel Cordeiro, especialista em gestação de alto risco, explica que a morte fetal é identificada pela ausência de atividade cardíaca dentro do útero. “A principal causa nas gestações de primeiro filho costuma ser a trombofilia, uma condição que favorece a formação de coágulos e pode comprometer a oxigenação do bebê”, afirma.
Além disso, fatores como hipertensão, diabetes, obesidade, idade materna avançada, uso de drogas e até mesmo a alimentação da gestante podem contribuir para o risco. No entanto, o protocolo atual de saúde pública só recomenda exames para trombofilia após três perdas gestacionais — o que, segundo especialistas, é tarde demais em muitos casos.
“A investigação da trombofilia só deve ser feita após três meses da perda. Os exames não são indicados durante a gestação, por isso é fundamental um pré-natal rigoroso e avaliações completas antes de tentar uma nova gravidez”, reforça Cordeiro.
Relato de quem viveu a dor
A pedagoga Denise Farias conhece de perto o impacto emocional de uma perda fetal. Ela perdeu um filho na 20ª semana de gestação. “Foi por suspeita de trombofilia, mas até então a gravidez seguia tranquila”, conta.
Mesmo enfrentando a dor, Denise diz ter vivido uma cura emocional no mesmo dia.
“Pedi a Deus para me restaurar porque queria engravidar logo. E assim aconteceu. Em menos de dois meses, veio a Luíza. Foram mais de 200 injeções na barriga para evitar uma nova perda, mas eu tinha certeza de que ela era um presente de Deus.”
Hoje, Luíza tem sete anos e Denise fala do passado sem mágoas. “Não tenho dor na alma, só gratidão. O apoio da família e dos amigos foi importante, mas minha fé em Deus foi o que me sustentou. A escolha de não permanecer no luto fez toda a diferença.”
O parto e o silêncio
A escolha do tipo de parto após uma morte fetal também é uma das fases mais difíceis para a mulher. Apesar de parecer mais prática, a cesariana só é indicada em casos de risco para a mãe. “Em geral, é feita indução para o parto normal. Isso ajuda a preservar o útero e diminui os riscos numa futura gestação”, explica o médico.
Mesmo com todos os cuidados, nem sempre a morte fetal pode ser evitada. Ainda assim, é possível prevenir boa parte dos casos com diagnóstico precoce, mudanças nos protocolos e, principalmente, com mais empatia e acolhimento.
“A fé em Deus ajuda no enfrentamento da dor, mas o sistema de saúde precisa estar pronto para ouvir, apoiar e investigar. É preciso dar visibilidade a esse luto silencioso que atinge tantas famílias todos os anos”, conclui Cordeiro.


