A acompanhante de uma paciente submetida a um transplante de fígado no Hospital do Pênfigo, em Campo Grande, denunciou supostas falhas na assistência prestada após o procedimento. Sem se identificar por medo de represálias, ela afirma que a sogra, que sofre de encefalopatia hepática e passou pelo transplante recentemente, apresentou piora significativa durante a recuperação, enquanto médicos teriam insistido em conceder alta hospitalar, apesar das condições clínicas que, segundo ela, impediam a paciente até mesmo de permanecer sentada.
A denúncia surge dias após a Prefeitura de Campo Grande anunciar a liberação de R$ 11,4 milhões para ampliar o número de cirurgias eletivas e transplantes realizados na unidade. Embora reconheça a importância da ampliação dos procedimentos, a acompanhante afirma que a preocupação não está relacionada à quantidade de transplantes, mas à qualidade da assistência oferecida após as cirurgias.
Segundo o relato, o atendimento inicial foi marcado por acolhimento e suporte de uma equipe multidisciplinar composta por médicos, psicólogos, assistentes sociais e nutricionistas. A denunciante afirma que, até o momento do transplante, realizado após a confirmação da disponibilidade de um órgão, o tratamento transmitia confiança à família.
Entretanto, de acordo com ela, a situação mudou completamente após a cirurgia. "Naquela noite, ela não conseguiu dormir. Passou a madrugada inteira acordada, com muito mal-estar. Depois, precisaram conter os braços dela, e ela permaneceu contida por alguns dias. Eu dizia o tempo todo que ela não estava bem, que havia alguma coisa errada, mas a resposta que eu recebia era de que aquilo seria apenas um resquício da encefalopatia. Os dias passaram e ela só foi piorando."
Agravamento do estado de saúde
Mesmo diante da evolução do quadro, a familiar diz que os profissionais atribuíram os sintomas apenas aos efeitos da encefalopatia hepática pré-existente. Segundo a denúncia, medicamentos administrados durante a internação teriam agravado ainda mais a condição clínica da paciente.
Dias depois, a equipe médica informou à família que a melhor alternativa seria conceder alta hospitalar, sob a justificativa de que a paciente estaria apresentando um quadro de "delírio hospitalar" e que a recuperação seria mais eficiente em casa, próxima aos familiares.
A acompanhante afirma que chegou a providenciar a estrutura necessária para receber a sogra em casa, incluindo o aluguel de oxigênio domiciliar. No entanto, desistiu da alta após observar uma nova piora do estado clínico. "Eles disseram que a recuperação dela seria melhor em casa, porque no hospital ela poderia pegar alguma bactéria. Mas eu respondi que não iria levá-la daquele jeito. Ela precisava, pelo menos, conseguir dar dois passos. No dia seguinte, o médico entrou no quarto e disse para ela: 'Se a senhora não reagir, simplesmente vai morrer nessa cama".
A denunciante também afirma que outro profissional informou, posteriormente, que exames apontavam acúmulo de líquido no pulmão e redução da função renal para cerca de 40% a 50%, informações que, segundo ela, não haviam sido comunicadas anteriormente pela equipe responsável.
Omissão da equipe de saúde
Na avaliação da acompanhante, houve omissão de informações importantes sobre o estado de saúde da paciente e uma tentativa de acelerar sua saída do hospital.
A familiar acredita que a insistência pela alta estaria relacionada à necessidade de liberar leitos para novos transplantes, hipótese que, segundo ela, também teria sido comentada por funcionários da unidade, embora nenhum deles aceite se identificar por receio de sofrer consequências profissionais.
Outro ponto destacado pela denunciante é que, segundo ela, o atendimento humanizado oferecido antes do transplante desapareceu completamente durante o período de recuperação. "Depois que ela foi para o quarto, acabou a equipe multidisciplinar. Acabou a humanidade. Os médicos mal olhavam na nossa cara", afirmou.


