O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-proprietário e principal executivo do Banco Master, prestou um extenso depoimento à Polícia Federal (PF) no fim de dezembro de 2025, no âmbito do inquérito que apura um esquema bilionário de supostas fraudes financeiras que culminou na liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central (BC) e na deflagração da Operação Compliance Zero. As declarações, colhidas no Supremo Tribunal Federal (STF) e agora relatadas com base em fontes próximas aos autos, foram um dos momentos mais detalhados em que Vorcaro abordou pontos centrais da investigação, incluindo liquidez do banco, negociações com o BRB (Banco Regional de Brasília) e relações com figuras políticas.
Liquidez, modelo de negócios e uso do FGC
A PF perguntou a Vorcaro sobre as dificuldades financeiras do Banco Master antes da intervenção regulatória e sobre a estratégia que envolvia o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo de proteção ao investidor em caso de liquidação de bancos. Em resposta, ele admitiu que a instituição enfrentava problemas de liquidez e que a dependência de produtos garantidos pelo FGC fazia parte da sua abordagem de captação e negócios.
Segundo relato extraído dos autos, Vorcaro contextualizou que a operação financeira do banco incluía recursos resgatados por investidores, explicando que algumas transações com o BRB, como a transferência de R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025, foram:
“Atividades normais do banco, ali de resgate de investidores”.
Ele também rejeitou a acusação de que teria ocorrido uma fraude de R$ 12 bilhões na transação com o BRB:
“A transação não aconteceu. Para um crime ou para uma fraude acontecer, alguém tem que ter vantagem e outro tem que ter prejuízo. Nesse caso, o BRB não teve prejuízo, nenhum cliente teve prejuízo e o Banco Master não teve vantagem nesse negócio.”
Conversas com Ibaneis Rocha e menções a encontros institucionais
Questionado diretamente sobre sua interlocução com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) — que à época também era ligado ao BRB — Vorcaro confirmou que tratou com ele a proposta de venda do banco ao BRB, negócio que foi anunciado em março de 2025, mas vetado pelo Banco Central em setembro do mesmo ano.
Ele declarou que “conversei em algumas oportunidades, sim” com Ibaneis sobre a questão, e acrescentou que o governador foi à sua casa “uma vez” e que ele próprio também visitou a residência do político em encontros que classificou como “institucionais”.
Vorcaro, contudo, evitou aprofundar sobre possíveis intervenções políticas junto às autoridades regulatórias, negando que tenha buscado ajuda política para influenciar decisões do BC a favor do Banco Master.
Relações com política e uso de eventos institucionais
Em outro trecho do depoimento, a PF indagou Vorcaro sobre envolvimento em eventos e possíveis ligações com figuras de destaque no cenário político. Ele mencionou que patrocinou eventos voltados ao debate institucional no Brasil, mas sem lembrar especificamente da participação de autoridades do Distrito Federal:
“A gente patrocinou alguns eventos de discussão institucional do Brasil, que eu não me recordo se tinham autoridades do Distrito Federal.”
Quando questionado sobre sua condição atual, com uso de tornozeleira eletrônica desde sua soltura após prisão preventiva em novembro, ele foi enfático:
“De maneira nenhuma. Nem nos meus piores pesadelos eu achei que poderia [ser preso].”
Contexto da investigação e próximos passos
Vorcaro foi preso em novembro de 2025 pela Polícia Federal quando tentava embarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, para o exterior, após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master por entender que a instituição não tinha condições de honrar seus compromissos e representava risco sistêmico ao sistema financeiro.
O depoimento que ele prestou durou cerca de três horas e, logo depois, a PF ouviu o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, além de outros envolvidos como o diretor de Fiscalização do Banco Central. Houve acareação entre Vorcaro e Costa em um encontro determinado pelo ministro Dias Toffoli, relator do processo no STF, para confrontar versões divergentes sobre os negócios entre as instituições.
O inquérito corre em sigilo no STF, e a Polícia Federal pode pedir diligências adicionais, incluindo outra acareação se forem identificadas contradições nos depoimentos colhidos.
Enquanto isso, desdobramentos da Operação Compliance Zero seguem repercutindo no meio jurídico, no sistema financeiro e na política, à medida que autoridades e advogados revelam ou contestam versões sobre as práticas que levaram à maior liquidação bancária da história recente do país.


