Campo Grande sedia, nesta quinta e sexta-feira (4 e 5), o 3º Encontro Nacional das Casas da Mulher Brasileira, evento que reuniu representantes de 15 unidades do país e autoridades estaduais e municipais para discutir estratégias de enfrentamento à violência contra a mulher. Na abertura do evento, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, foi enfática ao afirmar que o combate ao problema deve ser uma pauta permanente, especialmente entre prefeitos e gestores públicos, por estarem mais próximos da população.
Segundo a ministra, é fundamental que os chefes dos executivos municipais se posicionem diariamente contra a violência doméstica em seus discursos, ações e políticas públicas. Para ela, a repetição da mensagem — seja em rádios, escolas, eventos ou comunicados oficiais — tem força simbólica e prática para mudar comportamentos na sociedade.
“Mato Grosso do Sul tem potencial econômico, indicadores sociais importantes e uma população feminina expressiva. Não combina crescimento com altos índices de violência contra a mulher. É preciso transformar esse cenário”, afirmou.
O encontro acontece em um contexto preocupante: o Estado está entre aqueles que apresentam altos índices proporcionais de feminicídio. Neste ano, 37 mulheres foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros, número que alarma autoridades e movimentos sociais.
Representando o governo estadual, o vice-governador José Carlos Barbosa, o Barbosinha, destacou que uma única morte já deve ser motivo de vergonha para a sociedade. Ele defendeu ações estruturais para combater o machismo, que classificou como raiz do problema. Segundo ele, é necessário trabalhar a educação desde a infância, dentro das escolas, igrejas e comunidades, para construir uma nova geração baseada no respeito às mulheres.
“Nós temos que tirar esse mal da nossa sociedade. Quem ama não agride, não humilha e não mata”, declarou.
Educação de homens agressores vira prioridade
Além do reforço no atendimento às vítimas, um dos principais eixos debatidos no encontro foi a necessidade de atuar diretamente na reeducação de homens autores de violência. Para a subsecretária estadual de Políticas Públicas para Mulheres, Manuela Nicodemos, a violência está ligada a um processo histórico de naturalização do controle masculino sobre o corpo e a vida das mulheres.
Ela ressaltou que, embora leis e punições sejam importantes, elas, por si só, não são suficientes para conter o problema. A principal mudança, segundo Manuela, passa pela transformação de comportamentos e mentalidades.
“O que impede um homem de matar não é o medo da lei, mas a mudança de consciência. Ele precisa entender que não tem qualquer direito sobre a vida de uma mulher”, pontuou.
Manuela também ressaltou a importância do trabalho preventivo com adolescentes, citando o programa Protege, desenvolvido na rede estadual de ensino, que atua dentro das escolas, por meio de grêmios estudantis e ações educativas voltadas à igualdade de gênero, respeito e resolução pacífica de conflitos.
Campo Grande vira referência nacional
A secretária-executiva da Mulher de Campo Grande, Angélica Fontanari, apresentou durante o encontro os resultados do programa Recomeçar, que organiza grupos reflexivos com homens encaminhados pela Justiça após cometerem violência doméstica. Segundo ela, o projeto já atendeu cerca de 400 participantes e não registrou reincidência entre os envolvidos.
Durante 16 encontros semanais, os participantes trabalham questões relacionadas ao controle emocional, frustrações, masculinidade tóxica e responsabilidade afetiva. Os resultados chamaram a atenção de outras cidades e instituições, inclusive internacionais, interessadas em replicar o modelo adotado na capital de Mato Grosso do Sul.
Além disso, Angélica enfatizou que o município também desenvolve ações educativas dentro das escolas, envolvendo tanto meninos quanto meninas, com foco em convivência, empatia e limites dentro das relações.
Compromisso em destaque
Ao final da cerimônia de abertura, ficou evidente o compromisso das autoridades em transformar Mato Grosso do Sul em referência positiva no combate à violência contra a mulher. A ministra Márcia Lopes afirmou que espera poder levar ao restante do país exemplos bem-sucedidos do Estado.
“Quero voltar a Mato Grosso do Sul e poder dizer, em todo o Brasil, que aqui a violência contra a mulher foi enfrentada com seriedade, união e resultados concretos”, concluiu.
O 3º Encontro Nacional das Casas da Mulher Brasileira se encerra nesta sexta-feira em Campo Grande, com debates técnicos, trocas de experiências e apresentação de boas práticas voltadas à proteção, acolhimento e empoderamento das mulheres em situação de violência.


