A química brasileira Lívia Schiavinato Eberlin, natural de Campinas (SP), está à frente de uma tecnologia revolucionária na medicina: a MasSpec Pen — um dispositivo portátil semelhante a uma caneta capaz de distinguir, em aproximadamente 10 segundos, se um tecido é saudável ou canceroso, com precisão que ultrapassa 95%. A expectativa é de que esse avanço acelere cirurgias, diminua o tempo de anestesia e reduza a necessidade de reoperação.
Como funciona a tecnologia
Durante o procedimento, a ponteira da caneta libera uma micro-gota de água sobre a superfície do tecido. Essa microgota dissolve moléculas características da área examinada e as envia a um espectrômetro de massa conectado. Uma inteligência artificial compara o padrão molecular obtido com um banco de dados previamente construído e informa de imediato se a amostra é “Normal” ou “Cancerígena”. O processo leva cerca de dez segundos, bem abaixo do método tradicional (análise de congelamento de tecido), que pode demandar mais de 30 minutos.
Pesquisa, resultados e etapas de validação
Nos ensaios iniciais, mais de 250 amostras humanas de diferentes órgãos — como mama, pulmão, tireoide e ovário — foram avaliadas com precisão superior a 96%. A pesquisadora relata foco especial em melhorar a margem de segurança das operações oncológicas.
“O que é incrível é que, por meio de um processo químico simples, a MasSpec Pen fornece rapidamente informação molecular diagnóstica sem danificar o tecido”, disse Eberlin.
Ainda que os testes em humanos completos ainda estejam em andamento, ensaios em modelos animais e os primeiros pilotos clínicos já indicam viabilidade. No Brasil, um hospital de São Paulo está participando de ensaio clínico que envolve 60 pacientes com tumores de pulmão e tireoide, sendo o país o primeiro fora dos Estados Unidos a testar a tecnologia em ambiente cirúrgico.
A pesquisadora e o legado científico
Lívia se formou em Química pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2007, concluiu doutorado na Purdue University em 2012 e fez pós-doutorado na Stanford University. Atualmente, é professora na Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos.
Além da MasSpec Pen, Eberlin acumula reconhecimentos como a bolsa MacArthur “Genius” e diversos prêmios de química analítica. Em 2025, foi agraciada com a medalha Biemann pela American Society for Mass Spectrometry.
Desafios, impacto e futuro
Embora a tecnologia seja promissora, há desafios pela frente: a adoção clínica exige aprovação regulatória, adaptação em blocos cirúrgicos (como a necessidade de um espectrômetro de massa), além de estudos de longo prazo que comprovem a segurança e eficácia em diferentes tipos de câncer.
O impacto esperado, contudo, é relevante: cirurgias mais precisas, redução de tecido saudável removido inadvertidamente e menor probabilidade de recidiva.
“Se você conversar com pacientes de câncer depois da cirurgia, muitos são assombrados e dizem: ‘Espero que o cirurgião tenha tirado todo o câncer’. É simplesmente de partir o coração quando isso não acontece”, afirmou a pesquisadora.
Caso os estudos avançados corram conforme o previsto, a MasSpec Pen pode se tornar uma ferramenta padrão em oncologia, alterando significativamente o panorama da remoção cirúrgica de tumores.


