Uma clínica veterinária localizada no bairro Vila Morumbi, em Campo Grande, está sendo alvo de diversas denúncias envolvendo supostos casos de negligência, estrutura inadequada e até relatos de desaparecimento de corpos de animais que morreram sob seus cuidados.
Conhecida por funcionar 24 horas e se divulgar como referência em castrações a preços populares, a clínica tem sido constantemente citada por tutores nas redes sociais e em avaliações online, que relatam experiências negativas envolvendo desde atendimentos emergenciais até o não fornecimento dos corpos de animais após procedimentos cirúrgicos.
As denúncias chegaram ao conhecimento do Sindicato dos Médicos Veterinários de Mato Grosso do Sul (LuteVet/MS), que decidiu formalizar os relatos junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT), ao CRMV/MS (Conselho Regional de Medicina Veterinária) e à Delegacia Regional do Trabalho.
Relato de tutores abala confiança na clínica
Entre os casos divulgados, está o de Guilherme Neves, cientista de dados, que buscou atendimento noturno para seu gato Cheddar, que apresentava sintomas de insuficiência respiratória. Mesmo sendo o único cliente no local, ele relata que enfrentou demora no atendimento e insensibilidade por parte da equipe.
“Enquanto a veterinária fazia perguntas cadastrais, meu gato estava piorando visivelmente. Quando perceberam a gravidade, disseram que não havia oxigênio e me mandaram procurar outra clínica”, contou. Cheddar não resistiu e morreu antes de chegar a outro local.
Outro tutor, o fotojornalista Helder Carvalho, perdeu sua gata Kira dias após uma castração realizada na clínica. Segundo ele, a equipe demonstrou resistência em prestar assistência no pós-operatório, mesmo diante do agravamento do quadro de saúde do animal. “No fim, a única resposta que recebi foi uma mensagem: ‘Sinto muito pela perda’”, relatou.
Acusações de ocultação de corpos
Diversos relatos apontam que, após a morte de animais na clínica, tutores não tiveram a oportunidade de se despedir ou sequer ver o corpo dos pets. Em um dos casos, uma tutora afirmou que seu gato morreu durante a castração, e que, mesmo avisando que queria buscá-lo, foi informada que o corpo já havia sido recolhido.
“Nem pude ver meu gato pela última vez. Disseram que foi recolhido pela empresa terceirizada de forma muito rápida. Como posso confiar nisso?”, desabafou.
Outros clientes relatam situação semelhante, como a de uma mulher que disse ter perdido seu gato por reação anafilática e não recebeu explicações adequadas sobre o paradeiro do corpo.
Ex-funcionária denuncia estrutura precária
Uma ex-funcionária da clínica, que pediu anonimato, afirmou que o espaço carece de estrutura mínima para os serviços oferecidos. Ela relata casos de má higiene, manejo inadequado e até ocultação da morte de um animal após fuga durante internação. Segundo ela, os tutores foram informados falsamente de que o gato havia falecido durante cirurgia e que o corpo fora recolhido pela vigilância sanitária — o que, segundo a funcionária, não ocorreu.
De acordo com a legislação, quando um animal morre sob cuidados clínicos, o tutor deve ser informado e decidir se deseja o corpo ou autoriza o descarte por empresa especializada. “A entrega não pode ser feita sem consentimento”, pontua.
Fiscalização do CRMV identifica irregularidades
Em vistoria recente feita pelo CRMV/MS, foram apontadas algumas falhas no funcionamento da clínica. Embora a higiene das baias e a disponibilidade de água e ração estivessem em dia, o conselho verificou que muitos animais no pós-operatório não usavam colar elisabetano ou roupas cirúrgicas — o que compromete o processo de recuperação.
Também foram encontradas pomadas sem validade visível e ampolas lacradas com esparadrapo, além da ausência de material cirúrgico esterilizado disponível para verificação. A clínica recebeu uma série de recomendações e foi orientada a manter um médico veterinário presente durante todo o período de atendimento e internação.
Sindicato formaliza denúncias às autoridades
O LuteVet/MS confirmou ter recebido múltiplas queixas relacionadas à atuação de profissionais da clínica nos últimos meses. Em nota, o sindicato informou que reuniu documentos, fotos e vídeos, e encaminhou tudo aos órgãos competentes para investigação. Por se tratar de um processo sigiloso, os detalhes ainda não podem ser divulgados.
Clínica e responsável se pronunciam
A proprietária da clínica alegou ao Midiamax surpresa diante das denúncias. Segundo ela, nunca havia recebido reclamações anteriores e afirmou manter contato pós-cirúrgico com os tutores.
“Óbitos podem ocorrer em qualquer cirurgia, ainda mais com animais de rua, sem histórico de saúde conhecido. Atendemos muitas ONGs, e às vezes não dá para prever reações adversas”, explicou.
Investigação segue em andamento
A clínica permanece sob investigação e, até o momento, não há conclusões divulgadas sobre as denúncias.


