Como seria uma vida sem limites? No mínimo interessante. Imagine ser capaz de realizar tudo o que vier à mente, sem consequências? Como comer até estourar, fazer sexo com tudo o que se move e desafiar os limites do seu corpo. Para muitos é o sonho, para alguns, seria o início de uma vida vazia, e para apenas um único individuo, é um estilo de vida.
Na cidade de Sodoma, nos tempos antigos antes de Jesus Cristos, dois estranhos de capuz chegam à cidade para uma audiência com o rei local. Rei esse que não passa de um jovem em boa forma e bem exibicionista, a ponto de nem estar com o peito coberto com pelo menos um manto.
Para a sorte dos estranhos, e o azar das moças de sua corte, ele tem o mínimo de decência para cobrir as partes baixas com algo próximo de uma calça da época. Mais chamativa do que o abdome perfeito do jovem rei é a festa de arromba que ocorre em sua corte com direito às melhores comidas, bebidas, moças e até animais por todo local. Apesar da falta de
pudor e gula sem limitações de todos os presentes, os dois encapuzados não se incomodam com essa situação, conforme se aproximam do trono revestido de ouro, joias, comidas e mulheres.
Então, diante do jovem e bonito rei, os dois encapuzados se comportam de maneira respeitosa ao se ajoelharem enquanto esperam qualquer manifestação por parte dele, que vem com a seguinte ordem:
-Não contaram lá na entrada? Sem roupas, sem serviços, meus consagrados. Ao ouvirem isso, os dois encapuzados ficam com certa vergonha, então um deles diz de maneira bemeducada:
-Se não for... incômodo, majestade. Gostaríamos de manter nossas vestes.
O pedido não gera nada senão indiferença para o rei, que em um mísero segundo, tem uma mudança de reação ao dizer de forma animada:
-De boa. Aqui não tem regra mesmo.
Confusos, os encapuzados olham ainda ajoelhados, esperando por uma reação do jovem rei que demora dez segundos para se dar conta de que seus visitantes esperam algo dele, a ponto de perguntar:
-Dava pra levantarem e me dizerem o que querem?
Apesar de confusos quanto ao comportamento de seu anfitrião, os dois visitantes se levantam para um deles dizer: -Nós viemos aqui tratar sobre a situação da cidade.
Mesmo sem se mexer ou mudar de expressão, é visível que o jovem rei não entendeu nada, conforme pisca três vezes, fazendo o outro encapuzado perguntar:
-Você... não recebeu o aviso?
Mais três piscadas e o rei checa sua correspondência em uma sacola atrás do trono. E pegando a primeira carta que lhe aparece, pergunta sem nem ao menos abri-la: -É essa aqui?
-É.
Apesar de deixar claro que não leu o conteúdo, o jovem rei se levanta animado do trono, se junta no meio dos seus dois convidados, conforme coloca seus braços sobre eles, e diz:
-Tá certo então. Qual é o plano? Já sei, que tal eu mostrar a cidade pra você?-Era essa a ideia.
-Então pode deixar que o pai aqui tem tudo assegurado.
Nas ruas de Sodoma a agitação é ainda maior do que no palácio, só que ao invés de festas promíscuas, tem crime, violência e sodomia em plena luz do dia. Tais atos chegam a chocar os dois encapuzados enquanto o rei apenas expressa seu orgulho com o comportamento errático de seus cidadãos, a ponto de dizer: -Eu sei. O dia tá fraco.
O comentário do rei deixa os dois encapuzados ainda mais chocados, então, após se recuperarem, eles fazem algumas perguntas ao seu anfitrião:-Diga-nos, majestade. Qual a fonte de renda da cidade?
-Renda? Que é isso?
Vendo a dúvida genuína do rei de Sodoma, o outro encapuzado reformula a pergunta: -Como vocês fazem dinheiro?
-Como qualquer pessoa. Roubando os outros, escravizando os outros e prostituindo pros outros. Só o básico.
Agora quem pisca de dúvida são os visitantes que, antes que possam fazer qualquer pergunta, o barulho de chamas e gritarias chama atenção deles para a visão de um templo pegando fogo.
Antes mesmo que pudessem se chocar ainda mais, o jovem rei se adianta em explicar a situação: -Opa, parece que o melhor show do dia começou.
-Aquilo... é um templo?
-O último templo, sendo mais específico.
-Por que...?
-Tava ocupando espaço. Mas não se preocupe, faremos outro templo. Um templo em minha homenagem.
Os dois encapuzados olham incrédulos e chocados para seu anfitrião que não demora a explicar da forma mais tranquila possível: -Pega a ideia... Melhor ainda. Vejam um exemplo.
Logo em seguida, o rei leva seus dois visitantes para um dos vários templos em sua homenagem. Que por acaso é outro antro de promiscuidade e sacrilégio, com a diferença de que há uma estátua de ouro gigante da imagem do rei no centro. Como resposta a outro estado de choque de seus visitantes, o homenageado do templo diz: -Que foi? Todo mundo precisa de apoio espiritual.
Após ouvirem isso, os dois encapuzados olham um para o outro para então fazerem a seguinte pergunta ao seu anfitrião: -Vossa majestade, todos na cidade são... desse jeito?
-Ah, sim. Exceto uma família que mora lá no morro. São tudo um bando de caretas, mas as filhas são umas belezuras. Depois devia prestar uma visita...
-Sim, nós os conhecemos. Nos acolheram e nos protegeram quando seus... súditos aparecerem exigindo profanar a nós e suas filhas.
-Acontece com todo mundo. O que se pode fazer?
Sem mais choque ou olhares insinuantes um para o outro, os dois encapuzados dirigem sua atenção ao jovem rei para lhe dizer: -Agradecemos sua hospitalidade, mas receio que teremos que destruir essa cidade e todos que a habitam.
-À vontade.
-Está ciente que irá morrer com eles?
-Um bom rei tem que dar um exemplo. E cá entre nós, esse lugar tava perdendo a graça.
Os encapuzados ficam incrédulos e de forma bem-educada dizem: -Majestade, receio dizer que irá para o Inferno.
-Tomara. Vai ser bom ficar entre meus pares.
-Não seja tão precipitado. Mesmo os demônios do Inferno não chegam a esse nível de... animação.
-Então que bom que eu vou lá para animar as coisas.
Ouvindo isso, os dois encapuzados tiram os capuzes
-Adeus e obrigado por sua... hospitalidade.
-Disponham, e fiquem à vontade para virem na festa de boas-vindas que vou armar lá embaixo.


