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BIOECONOMIA

há 1 mês

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Da periferia ao mundo: afroempreendedora de MS cria beleza a partir da fibra de bananeira

Desenvolvida por uma empreendedora negra de Campo Grande, inovação inspirada na biodiversidade do Cerrado atrai interesse internacional, gera oportunidades na periferia e revela a força econômica do afroempreendedorismo sul-mato-grossense

No coração de uma comunidade de Campo Grande nasceu uma inovação que atravessou fronteiras. Inglaterra, Alemanha, Portugal, México, Japão e países africanos estão entre os mercados interessados em um produto desenvolvido a partir da fibra da bananeira. A iniciativa une beleza, sustentabilidade e tecnologia, transformando uma descoberta feita no quintal de casa em um negócio que hoje revela ao mundo a força do afroempreendedorismo sul-mato-grossense.

Por trás da inovação está a empreendedora Marilza Eleotério de Barcelos Silva, fundadora da marca Meus Cabelos, Meus Fios. Nascida no Espírito Santo, ela chegou à capital sul-mato-grossense em 2016 e, anos depois, transformou uma busca pessoal por soluções para os cabelos crespos e cacheados em um produto capaz de despertar interesse dentro e fora do Brasil.

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A matéria-prima, antes descartada, ganha novo valor na produção dos fios vegetais criados em Campo Grande. Foto: Marcus Maluf

O produto surgiu da busca por uma solução para um problema comum entre muitas mulheres negras: a dificuldade de encontrar alternativas práticas para cuidar dos cabelos crespos e cacheados. A descoberta aconteceu em 2018, durante o corte de um cacho de banana.

"Quando eu percebi fio ao cortar um cacho de banana com a faca cega, eu não estava esperando que eu ia ver fio, nunca imaginei. Mas quando eu vi, pensei: será que vai ser bom? Será que vai dar certo?"

A curiosidade deu início a uma jornada de experimentação que durou anos. Sem laboratório, sem equipe técnica e sem experiência na indústria cosmética, Marilza passou a testar materiais, ingredientes e processos para transformar a fibra vegetal em um produto capaz de atender às necessidades do mercado da beleza.

A busca pela qualidade sempre esteve no centro do projeto. "Eu queria ter um cabelo macio. Testei muitos produtos, produtos bons, de marcas boas, mas quando secavam, voltavam a ficar ásperos. Eu queria algo diferente."

A resposta veio da própria biodiversidade sul-mato-grossense. Após inúmeros testes, a empreendedora encontrou em um fruto do Cerrado a combinação que proporcionou maciez e resistência à fibra vegetal. A descoberta abriu caminho para uma linha completa de produtos.

Hoje, além da fibra capilar, a empresa possui 17 cosméticos desenvolvidos a partir de matérias-primas do bioma. O resultado é uma proposta inédita que combina inovação, identidade brasileira e valorização da estética negra.

"Eu tenho um cabelo pronto para ganhar o mundo. É leve como algodão, macio como seda, dura até três anos e pode ser modelado facilmente. Eu queria criar algo que facilitasse a vida das mulheres, principalmente das mulheres negras."

Inovação que nasce na periferia

A história da empresa também desafia estereótipos. Enquanto muitos associam comunidades periféricas apenas à ausência de oportunidades, Marilza enxerga nesses territórios espaços férteis para a criatividade e o empreendedorismo. Foi na comunidade Lagoa Park 2, em Campo Grande, que a inovação ganhou forma.

"Às vezes as pessoas pensam que porque a gente mora dentro da comunidade, sendo negra e sendo pobre, é todo mundo bandido. Só que não. Dentro da comunidade nascem muitos talentos. Tem muita gente boa, muita gente que quer ver o melhor."

Antes de conquistar compradores em diferentes continentes, a história começou dentro de um barraco de madeira e lona na periferia de Campo Grande. Para traduzir visualmente essa trajetória de persistência, criatividade e inovação, a reportagem também utiliza a linguagem das histórias em quadrinhos. A HQ abaixo reconstrói os principais momentos da caminhada de Marilza Eleotério até transformar a fibra da bananeira em um produto que desperta interesse internacional.

Os primeiros testes aconteceram dentro de casa. A produção inicial da fibra era totalmente artesanal. Com uma colher, Marilza e o marido extraíam cerca de 100 gramas por dia.O desafio exigiu criatividade. A partir da observação do próprio processo, ela desenvolveu uma máquina artesanal que multiplicou a capacidade produtiva.

"Eu extraía os fios na mão. Era muito lento. Deus me deu a inteligência de transformar aquilo em uma máquina. Hoje consigo produzir até dois quilos por dia."

A expansão do negócio já gera oportunidades para outras pessoas da comunidade. Familiares e trabalhadores locais participam das diferentes etapas da produção, criando uma rede de renda que cresce junto com a empresa.

Do Inova Cerrado ao mercado internacional

Transformar a invenção em negócio exigiu novos conhecimentos. O apoio veio por meio do programa Inova Cerrado, do Sebrae-MS. Na primeira etapa do programa, Marilza recebeu consultorias especializadas e conquistou o segundo lugar entre os projetos participantes, recebendo R$ 10 mil para investir na empresa.

Reconhecida pela inovação e impacto social do negócio, Marilza Eleotério recebeu premiação do Sebrae pelo trabalho desenvolvido com fibras de bananeira aplicadas ao setor da beleza. Reprodução/Sebrae-MS

O acompanhamento abriu novas perspectivas para a empreendedora. "O Inova Cerrado chegou na minha vida quando eu estava mais sufocada. Pensei em desistir várias vezes. As consultorias e mentorias abriram minha mente. Eu percebi que podia desenvolver muito mais coisas."

Atualmente, ela participa do Módulo Tração, etapa voltada à aceleração de negócios inovadores. O trabalho também conta com apoio do Senai e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável (Semades).

A estruturação permitiu que a empresa avançasse para um novo estágio. Hoje, a meta é ampliar a produção, concluir os processos regulatórios e iniciar as exportações. O interesse internacional apareceu após um vídeo sobre a fibra capilar viralizar nas redes sociais. Em poucos dias, mensagens chegaram de diferentes regiões do Brasil e do exterior.

"Eu achei que o meu produto ia ficar só comigo. Eu nunca imaginei que ele sairia do meu quintal, da minha casa. Muito menos que ganharia o Brasil e chegaria fora do país."

A repercussão superou qualquer expectativa. "A gente recebeu pedidos de vários países. Tivemos interesse da Inglaterra, Alemanha, Portugal, México, Japão e países da África. Hoje o nosso maior desafio é atender todo mundo."

Afroempreendedorismo como força econômica

A trajetória de Marilza faz parte de um movimento maior. Em Mato Grosso do Sul, o empreendedorismo negro já representa a maioria dos negócios. Dados do Sebrae mostram que o estado possui 392,5 mil donos de negócios. Desses, 211,1 mil são pessoas negras, o equivalente a 53,8% do total. O crescimento registrado desde 2012 chega a 66,9%.

Apliques confeccionados com fibra de bananeira unem sustentabilidade, acessibilidade e valorização da beleza negra. Foto: Marcus Maluf

Para o jornalista, empresário e fundador do Guia Negro, Guilherme Soares Dias, o afroempreendedorismo tem papel estratégico na economia e na valorização de patrimônios culturais historicamente invisibilizados. O movimento também ajuda a ampliar oportunidades para mulheres negras que transformam conhecimento, tradição e criatividade em renda.

"Tem muitas mulheres negras com potencial para empreender, principalmente nas comunidades e nas favelas. Muitas vezes esse potencial não recebe valorização. A gente precisa de iniciativas que acreditem nessas mulheres, financiem suas ideias e fortaleçam esses negócios."

A valorização da cultura negra também gera desenvolvimento econômico em áreas como turismo, gastronomia, moda, beleza e economia criativa.

"Quando falamos de afroturismo, estamos falando de uma nova forma de enxergar o Brasil e de recontar uma história que não foi contada. É um movimento que cria novas experiências, novos negócios e novas oportunidades."

Segundo Guilherme, reconhecer a contribuição da população negra significa compreender melhor a própria identidade brasileira.

"Estamos falando de um país em que mais da metade da população é negra. Quando essa história não aparece, o Brasil perde parte da sua própria identidade."

Empreender na prática: uma experiência inspirada em uma história real

Criar um produto inovador, conquistar clientes, superar dificuldades financeiras e transformar uma ideia em negócio são desafios comuns a milhares de empreendedores brasileiros. Inspirada na trajetória de Marilza Eleotério, esta reportagem também apresenta uma experiência interativa que permite ao leitor testar seus conhecimentos sobre o universo da beleza, do afroempreendedorismo, da inovação e da gestão de pequenos negócios.

Acesse o QUIZ: https://xq7s5heu.forms.app/quiz-afroempreendedorismo-meus-cabelos-meus-fios

O empreendedorismo como ferramenta de transformação

O fortalecimento de negócios liderados por mulheres negras também integra as estratégias do Sebrae para os próximos anos. O diretor-superintendente do Sebrae/MS, Claudio Mendonça, cita a internacionalização de produtos, a inclusão produtiva, o turismo e o empreendedorismo feminino entre os eixos prioritários da instituição para 2026

A entidade pretende ampliar a participação de empreendedores em feiras nacionais e internacionais, além de incentivar produtos com identidade regional. A diretora-técnica do Sebrae/MS, Sandra Amarilha, destaca o impacto social da inclusão produtiva.

"O empreendedorismo é uma ferramenta poderosa de inclusão produtiva e transformação social. Ao lado da Secretaria de Estado da Cidadania, ampliamos o acesso a oportunidades reais de geração de renda, promovendo autonomia financeira e dignidade."

Enquanto estrutura a futura indústria e organiza os processos para exportação, Marilza continua desenvolvendo produtos e ampliando a produção. A empreendedora acredita que sua trajetória pode inspirar outras mulheres a transformar ideias em oportunidades.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

"Nunca tenha vergonha de tirar seu projeto do papel. Não dê ouvidos quando disserem que não vai dar certo. Eu recebi muitos 'nãos'. O que mudou minha vida foi buscar conhecimento e procurar ajuda. Quando a gente faz isso, as portas começam a abrir."

Mulheres negras estudam mais, mas ainda ganham menos

O protagonismo das mulheres negras no empreendedorismo brasileiro convive com desigualdades persistentes. Dados do Sebrae mostram que 67% das empreendedoras negras possuem ensino médio completo ou mais, percentual superior ao registrado entre os homens brancos (65,3%).

Após anos de pesquisas e testes, a empreendedora desenvolveu uma técnica que transforma fibras vegetais em fios para apliques e perucas. Foto: Marcus Maluf

Apesar do maior nível de escolaridade, elas registram a menor renda média entre os donos de negócios do país. Enquanto mulheres negras recebem, em média, R$ 2.090 por mês, homens negros alcançam R$ 2.868. Entre mulheres brancas, a renda média chega a R$ 3.879, enquanto homens brancos atingem R$ 5.144.

Na prática, isso significa que as empreendedoras negras recebem 27% menos que os homens negros, 46% menos que as mulheres brancas e 59% menos que os homens brancos, evidenciando os desafios que ainda marcam a busca por igualdade de oportunidades no ambiente empresarial.

Os números que explicam a força do afroempreendedorismo

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Empreendedorismo negro é maioria em Mato Grosso do Sul

O empreendedorismo negro já representa a principal força empresarial de Mato Grosso do Sul. Segundo dados do Sebrae, o estado possui 392,5 mil donos de negócios, dos quais 211,1 mil são pessoas negras, o equivalente a 53,8% do total.

O crescimento também chama atenção. Desde 2012, o número de empreendedores negros aumentou 66,9%, consolidando um movimento que fortalece a economia regional e amplia oportunidades de geração de renda em diferentes setores.

Serviço 

O negócio é uma construção familiar: Marilza divide a rotina de produção e pesquisa com o marido, parceiro desde os primeiros passos do empreendimento. Foto: Marcus Maluf

Para conhecer mais sobre o trabalho desenvolvido por Marilza Eleotério, acompanhar a produção dos cabelos à base de fibra de bananeira ou contribuir com a ampliação da futura indústria pode acessar os canais oficiais da empreendedora.
Instagram @meuscabelosmeusfios

Financiamento coletivo

Uma campanha destinada à ampliação da estrutura produtiva e à construção da futura indústria da marca também está em andamento. Para contribuir, acesse: https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/beleza-de-banana-inovacao-e-impacto-social

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