O avanço das plataformas de apostas esportivas no Brasil, intensificado a partir de 2023, passou a ter impacto direto no orçamento das famílias. Um levantamento apresentado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indica que os gastos mensais com as chamadas “bets” já superam R$ 30 bilhões, acompanhando uma deterioração relevante nos indicadores de inadimplência.
O estudo, baseado em dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), analisou o período entre 2021 e março de 2026 e foi divulgado em Brasília. A principal conclusão é que, embora o número total de famílias endividadas não tenha crescido de forma expressiva, a gravidade das dívidas aumentou.
Inadimplência mais grave e prolongada
De acordo com a análise, houve avanço significativo no número de famílias que afirmam não ter condições de quitar suas dívidas — a chamada inadimplência severa. Além disso, o tempo médio de atraso nos pagamentos também se ampliou, indicando dificuldades financeiras mais duradouras.
O crescimento das apostas online ocorre em paralelo a esse cenário. Em poucos anos, os gastos com plataformas digitais saltaram de praticamente zero para cifras bilionárias mensais, o que, segundo especialistas, pode estar relacionado ao comprometimento de renda de parte da população.
Perfil dos mais impactados
Homens, pessoas acima dos 35 anos e famílias de menor renda aparecem entre os grupos mais afetados. O levantamento também aponta aumento relevante da inadimplência entre indivíduos com maior escolaridade, possivelmente devido ao maior acesso a crédito e a aplicativos de apostas.
Nas faixas de renda mais elevadas, embora tenha havido redução no endividamento total, o atraso no pagamento de contas cresceu, o que sugere mudança no destino dos recursos financeiros, com maior direcionamento para apostas.
Mesmo com indicadores econômicos considerados favoráveis — como redução do desemprego e inflação sob controle — os efeitos negativos associados às bets persistem, reforçando a preocupação com o impacto estrutural desse tipo de atividade.
Apostas avançam entre população de menor renda
Um recorte específico do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), em parceria com a Secretaria da Família do DF, mostra que mais de um terço da população do Distrito Federal realizou algum tipo de aposta nos últimos 12 meses.
O estudo aponta maior concentração de apostadores nas faixas de renda média-baixa e baixa. Entre os valores gastos, predominam apostas de pequeno e médio porte, embora uma parcela significativa ultrapasse os R$ 500 mensais.
Debate sobre regulação e educação financeira
Diante do cenário, especialistas defendem medidas para conter os impactos negativos, como maior controle sobre a publicidade das plataformas, reforço na proteção ao consumidor e ampliação de iniciativas de educação financeira.
A avaliação é de que o crescimento acelerado das apostas online deixou de ser apenas uma tendência de mercado e passou a representar um desafio econômico e social relevante no país.


