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Alta da carne bovina leva argentinos a buscar alternativas como burro e lhama

Inflação elevada e perda de renda pressionam consumo e alteram hábitos alimentares no país

A disparada no preço da carne bovina na Argentina tem provocado mudanças no comportamento alimentar da população. Diante da inflação persistente e da queda do poder de compra, consumidores passaram a recorrer a proteínas mais baratas, como carne de burro e de lhama — opções até então pouco comuns na dieta local.

Tradicionalmente associada à identidade cultural argentina, a carne bovina vem perdendo espaço nas mesas. Em cidades como Trelew, na Patagônia, o quilo do produto já ultrapassa 25 mil pesos, enquanto alternativas como a carne de burro chegam a custar cerca de um terço desse valor.

Alems

Inflação muda padrão de consumo

O avanço dessas alternativas está diretamente ligado ao cenário econômico. Dados recentes indicam que os preços das carnes registraram aumento superior a 50% em um ano, com variações ainda maiores em algumas regiões. O impacto já é visível: o consumo de carne bovina caiu cerca de 10% no primeiro trimestre, atingindo o menor nível em duas décadas.

Historicamente, a Argentina esteve entre os maiores consumidores de carne vermelha do mundo, com índices que já chegaram a mais de 80 quilos por habitante ao ano. Hoje, esse número gira em torno de 45 quilos, refletindo a mudança de hábitos. Ao mesmo tempo, o consumo de carne de frango já supera o de carne bovina, impulsionado pelo menor custo.

Alternativas ganham espaço

A introdução da carne de burro no mercado ganhou força em meio à crise. Projetos locais, como o “Burros Patagones”, passaram a oferecer produtos derivados, incluindo empanadas e embutidos, que tiveram boa aceitação em testes com consumidores.

Apesar da repercussão, especialistas apontam que o consumo ainda é pontual e não representa, por ora, uma transformação estrutural da cadeia produtiva. Ainda assim, o fenômeno chama atenção por simbolizar a adaptação da população diante da perda de renda.

Outro produto que vem ganhando espaço é a carne de lhama, tradicional em regiões andinas. Considerada mais saudável, ela apresenta baixo teor de gordura, alto nível de proteínas e menor colesterol, o que tem atraído consumidores em busca de alternativas acessíveis e nutritivas.

Reflexo da crise econômica

A mudança no prato dos argentinos está diretamente ligada ao contexto econômico mais amplo. O país enfrenta inflação elevada, retração em setores industriais e dificuldades no mercado de trabalho, fatores que comprimem o orçamento das famílias.

Embora áreas como agropecuária, energia e mineração apresentem crescimento, esse avanço não tem sido suficiente para compensar a perda de renda em outros setores. O resultado é um cenário de consumo mais restrito e seletivo.

Mais do que uma curiosidade gastronômica, a substituição da carne bovina por outras proteínas evidencia um processo de transformação social. A pressão econômica tem levado a população a rever hábitos históricos, indicando que até tradições profundamente enraizadas podem ser impactadas quando o custo de vida sobe de forma consistente.

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