O preço da arroba do boi gordo alcançou o maior nível da série histórica e já começa a impactar o bolso do consumidor brasileiro. A valorização da proteína é resultado de uma combinação de fatores, como o aumento das exportações, maior demanda interna e a própria dinâmica do ciclo produtivo da pecuária.
Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indicam que a arroba — equivalente a 15 quilos — acumula alta de 26,5% em 2026, chegando a US$ 73,58, superando o recorde anterior registrado em abril de 2022. A série é acompanhada desde 1997.
Oferta restrita e exportações em alta
Especialistas apontam que o atual momento do setor pecuário contribui diretamente para a escalada dos preços. Em períodos de valorização, produtores tendem a reter fêmeas no campo para ampliar a produção de bezerros, o que reduz a quantidade de animais disponíveis para abate no curto prazo.
“Isso reduz a oferta de animais gordos disponíveis para o abate em meio a uma exportação forte”, explica Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador da área de pecuária do Cepea.
O movimento é reforçado pelo crescimento das vendas externas. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o Brasil exportou 3,5 milhões de toneladas de carne bovina em 2025, avanço de 20,9% na comparação anual. Apenas no primeiro trimestre de 2026, os embarques somaram 801,9 mil toneladas, alta de 18,4%.
Consumo interno e impacto nos preços
A demanda doméstica também tem papel relevante na alta. O cenário de melhora no mercado de trabalho e aumento da renda média contribui para o crescimento do consumo de carne, pressionando ainda mais os preços.
“Como a gente tem uma restrição de carne menor aqui dentro e aumento da exportação, a disponibilidade doméstica se reduz e ajuda a pressionar os preços para cima”, explica André Diz, professor de economia do Ibmec-SP.
Os efeitos já aparecem nos índices de inflação. Em março, o preço das carnes subiu 1,73%, maior alta mensal desde dezembro de 2024, segundo o IBGE. No acumulado do trimestre, a elevação chega a 3,18%, com aumentos expressivos em cortes populares e nobres.
Tendência e incertezas
A expectativa do mercado é de que os preços permaneçam elevados no curto prazo, com possível acomodação apenas no segundo semestre. “A gente já vê [o preço da] carne subindo no atacado. O consumidor brasileiro vai sentir [o repasse do nível recorde do boi gordo] nas próximas semanas”, prevê Bernardino.
Entre os fatores que podem influenciar o cenário estão a valorização do real — que encarece o produto brasileiro no exterior —, tensões internacionais que impactam custos de produção e a limitação das exportações para a China, principal compradora da carne nacional.
“A gente vê um mercado mais equilibrado, sem espaço para o preço do boi [gordo] cair. A tendência é de alta, mas todos os cenários podem segurar os preços”, afirma o pesquisador do Cepea.
Mesmo com possíveis ajustes ao longo do ano, o consumidor já sente no dia a dia os reflexos de um mercado aquecido e com oferta mais restrita.


