Na coluna passada, disse que traria minhas impressões sobre a Ford F-150 Lightning, a camioneta totalmente elétrica da Ford.
De fato, andei em uma das únicas unidades do Brasil, gentilmente cedida pelo Fábio Anache, proprietário da Showroom Multimarcas, de Campo Grande-MS.
Mas, para uma pessoa que tem “pré-restrições” aos veículos elétricos, por motivos que já explanei da coluna passada, como foi essa experiência?
Vocês vão saber agora.
Antes disso, trazer alguns números é absolutamente necessário, já que estes tipos de veículo (os elétricos) são bem diferentes dos demais veículos à combustão.
A começar, no caso da F-150 elétrica, pela potência combinada (1+1) dos seus dois motores elétricos, instalados em cada um dos eixos. Somados, entregam impressionantes 571cv.
Mas não é tudo. O mais “assustador” está no “número” de torque que a F-150 possui: são 107 kgfm, entregues de forma “praticamente” instantânea. E eu digo “praticamente”, porque ao acelerar até o “assoalho”, é possível perceber um curtíssimo, mas existente, “delay” do acelerador, programação esta muito comum em todos os veículos modernos (infelizmente). Mas nada comparado aos intermináveis atrasos dos veículos utilitários de combustão interna que, além do “delay” do acelerador eletrônico, ainda submetem o condutor à espera pela elevação do giro do motor e da turbina (quando sobrealimentados), para enfim começar a entregar a potência.
Falando ainda sobre os números, com uma carga completa, o fabricante promete uma autonomia de 510km, algo muito bom, considerando o estado atual do desenvolvimento de baterias.
Mas, ainda sobre a autonomia, tenho minhas dúvidas sobre a real entrega dessa quantidade quando e se o veiculo for utilizado para o que ele realmente fora desenvolvido, que é o trabalho mais pesado. Em condições de fora de estrada e com carga, fatalmente gerará uma considerável redução da autonomia.
Isso também acontece nos veículos à combustão, mas tenho a impressão que em veiculos elétricos, essa dinâmica se apresenta mais evidente. Não testei a Lightning nessas condições (o proprietário nunca permitiria, rsrsr) e estou falando apenas com base nas observações que tenho feito, quando se trata dos veículos que trazem essa matriz energética.
Também há de se considerar a capacidade de regeneração autônoma da carga da bateria, função que os veículos elétricos possuem e cuja eficiência tem se tornado cada vez mais presente.
Na Lightning, segundo o proprietário, em condições de rodovia e em “tocadas” mais fluidas, mesmo dentro da cidade (como no Parque dos Poderes, por exemplo), ela regenera consideravelmente a carga das baterias. E essa regeneração acontece através da atuação dos freios, tanto pelo motorista, quanto pela própria camioneta, em algumas condições por ela identificadas como favoráveis a isso (em descidas em que ela está em movimento pela própria inércia, por exemplo).
Em determinadas situações e possível ir de um lugar a outro sem “perder” nenhum quilômetro de autonomia, graças à capacidade de regeneração própria.
Mas, chega de falar de números e vamos ao que interessa, que são as minhas impressões sobre a camioneta.
A unidade testada trata de uma F-150 Ligthning, versão LARIAT, dotada da maior capacidade de bateria e de potência, disponibilizada pela marca para esta versão. Estes “extras” derivam da aquisição de um “pacote” opcional que inclui mais potência/autonomia, teto panorâmico, som Bang & Olufsen, entre outros.
Por fora, é um veiculo enorme, com seus praticamente 5.90 mts de comprimento, ou seja, média de 60 centimetros maior que as camionetas médias do mercado (Hilux, Ranger, S-10, entre outras).
Em veículos, essa diferença representa muita coisa!
O design é lindo e extremamente harmonioso, em todos os ângulos.

No interior, muito luxo, tecnologia e espaço confortável para cinco tripulantes. Uma enorme tela vertical ao centro do painel dá acesso às funções de ajustes, comodidades, som, ar condicionado e todas as demais configurações do veículo, incluindo os modos de condução (Confort, Fora de Estrada e Esportivo).
Ao volante, me impressionou logo na saída a leveza como a “gigante” sai da inércia. Ao menor torque ao acelerador, a camioneta começa a se deslocar como se tivesse meros 900kg, mesmo tendo aproximadas 3.000 kg.
E essa leveza e rapidez nas respostas ao acelerador faz a gente esquecer que está em uma camioneta com as proporções acima descritas.
É que em linha reta, ela acelera e retoma a velocidade tão facilmente, que dá a sensação de que estamos em um veiculo esportivo de alto desempenho.
E não estou exagerando! Ela é mesmo tão rápida quanto um esportivo de respeito. O “0 à 100” é da casa de 4 segundos!
Impressionante...
Na hora de parar ou de fazer uma curva mais fechada é que a gente retoma a consciência de que está conduzindo um “veículo de trabalho”.
Não que ela seja instável ou com freios ruins (longe disso), mas em manobras mais “soviéticas” as características inerentes à própria natureza do veiculo se apresentam ao motorista.
A direção é bem “indireta”, ou seja, exige muitas voltas para fechar um ciclo completo e a suspensão é extremamente macia, duas caraterísticas de um utilitário dessas proporções. Voltando à direção, essa tem assistência de faixas e percebi, quando andava pelo parque dos poderes, que ela buscava “ajustar” o veiculo dentro da sua pista de rolamento, o tempo todo. Uma segurança a mais, também prevista em veículos mais luxuosos.
Outro ponto que me chamou por demais a atenção é a robustez construtiva.
As bandejas dianteiras e traseiras são simplesmente gigantes, com proporções fora da normalidade, quando comparadas com outras camionetas. Não é pra menos: para aguentar o alto peso total (adicionado pelas baterias) e os inimagináveis 107 kgfm de torque, a construção dos eixos e do conjunto de suspensão realmente demandaram atenção especial e isso torna o “rodar” muito interessante.
Para testar a torção da carroceria, subi no meio fio, lateralmente, e mesmo sendo dotada de um gigante teto solar panorâmico, não percebi nenhum estalo na carroceria ou no interior do veiculo.
Uma curiosidade: debaixo do gigantesco capô existe um (também gigante) porta-malas frontal, pois os motores dianteiro e traseiro, como disse antes, estão instalados nos eixos.
Os americanos até apelidaram este compartimento de “frunk”, associando o nome do porta malas traseiro (trunk) com o fato dele estar na frente do veículo (front).
Em conclusão, gostei ou não?
Claro que gostei!
O fato de eu ainda preferir os veículos à combustão não me impedem de exercer a minha imparcialidade avaliativa e reconhecer que se trata de um utilitário diferente (pra melhor) de tudo que eu já vi na vida.
Não é de se estranhar que esteja vendendo “como água” nos EUA, país que já está bem avançado em termos de estrutura de abastecimento de veículos elétricos.
Ao final do dia, restou uma belíssima experiência ao volante da F-150 lightning, uma gigante em todos os sentidos: no tamanho, no conforto, no desempenho e no preço, rsrsr...










Bruno Romero (advogado e apaixonado por carros)


