E os carros elétricos, hein...?
Eu sou um relutante em gostar dessa “nova” matriz energética. Um amigo (Fábio Anache), grande empresário do ramo e um entusiasta automotivo, costuma dizer que sou um “negacionista”, quando se trata desse assunto, rsrsr.
Em verdade, não me vejo como negacionista. Simplesmente (ainda) não gosto dessa nova modalidade de força motriz, quando aplicada aos automóveis, mas reconheço que a sua “chegada” é algo definitivo e de certa forma, inevitável.
Sou da geração de garotos que nos anos 90 devorava todas as revistas automotivas, aprendia a dirigir com 12 anos e se prontificava a lavar o carro dos pais para, na primeira distração destes, sair para dar aquela voltinha no bairro.
Por tudo isso, muito natural que eu goste dos motores a combustão, com seus barulhos típicos, maravilhosamente incrementados pela troca do escapamento e pelo fato de que, pelas características próprias de cada proposta construtiva, a experiência se torna individualizada.
Mas enfim, embora o assunto de hoje seja sobre os carros elétricos, inegável não surgir comparações.
Em 2020, quando do lançamento do Audi E-Tron, tive a oportunidade de testá-lo por um fim de semana inteiro e concluí, naquela oportunidade, que ele é “maravilhosamente sem graça”.
Mas é inegável que eles (os elétricos) estão aí, cada dia mais presentes nas nossas vidas e substituirão os motores a combustão, tal como as TVs de cristal líquido foram, aos poucos, tomando conta dos lares e extirpando de vez a tecnologia de tubos de imagem.
Mas essa não é uma comparação tão boa de se fazer.
É que as TVs de cristal líquido trouxeram uma evolução na qualidade e na experiência visual em uma proporção tão discrepante quanto às TVS de tubo, que ninguém relutou em momento algum, em “abraçar” a nova tecnologia.
Mas nos carros, essa diferença não é assim tão grande, penso eu.
Inegável que a motricidade elétrica aplicada aos automóveis tem sim, suas vantagens, mas também trará, na minha opinião, uma certa equalização, uma “normatização” da forma como a potência será entregue, gerando uma espécie de “padronização” da experiência ao volante.
Explico.
Cada motor a combustão tem uma característica que decorre da forma como o fabricante o construiu, justamente para atender cada tipo de aplicação.
É sabido que motores podem ser construídos com priorização na entrega do torque ou da potência, ou até mesmo da mistura entre ambos.
Isso faz com que um motor de quatro cilindros 1.0, aplicado em uma Fiat Mobi, tenha potência baixa, torque mais alto e giros medianos, ao passo que um mesmo motor de quatro cilindros 1.0, quando aplicado para uma motocicleta esportiva, entregue potências altas, em altíssimas rotações, mas com torques baixos.
E o mesmo ocorre nos carros.
O Dodge Challenger, equipado com um motor de 5.7 litros, gira pouco e entrega um torque alto, pois é dessa forma que o fabricante quis que fosse aplicado ao carro. Essa é a experiência que o fabricante quis passar para o condutor, nesse caso específico.
Já a Porsche, em contrapartida, equipa seus esportivos clássicos com motores de menor capacidade volumétrica, quando comparada aos Challenger, mas que giram alto e entregam alta potência, não priorizando o torque nas baixas rotações.
Nos motores elétricos, me parece que essas características ficarão cada vez mais “iguais” em todos os veículos, em um cenário que todos entregarão torques absurdos em baixa (e de forma imediata), além de altas potência em altas rotações.
Isso é fenomenal do ponto de vista do desempenho, superando os motores a combustão em todas as faixas de rotação, mas trará, na minha opinião, o “empobrecimento” da individualidade, da “impressão digital” de cada veiculo.
Um Dodge Challenger elétrico se comportará, cada vez mais, como um Porsche elétrico e vice e versa, obviamente, na forma como seus motores entregarão a potência ao condutor. As demais características de cada projeto remanescerão inalteradas, claro, mas a dinâmica condutiva, no que depender da força motriz, estará cada vez mais equalizada entre os diferentes carros.
Me parece que aquela liberdade de escolha pelo veiculo que lhe agrada mais, justamente pelas abissais diferenças comportamentais, em termos de motorização, ficará cada vez mais escassa.
A sensação de escolher andar em um V8 atmosférico, com aquele motor de enorme deslocamento cúbico e seu peculiar ronco ou, pra quem prefere, o prazer de dirigir um Porsche GT3 RS, de 4 litros, cuja usina de força gira a inacreditáveis 9000 rotações, não encontrará equivalência em motores elétricos.
Entregar aos clientes aficionados aquelas peculiaridades que cada projeto de engenharia permitia com os motores de explosão interna será, pra mim, o grande desafio das indústrias, agora com a troca da matriz energética.
Estimo que consigam.
Reafirmando o que disse no começo dessa coluna, não sou negacionista, tampouco leviano de dizer que essa nova matriz energética não traz suas vantagens.
Do ponto de vista do custo por “km” rodado é indiscutível que a economia financeira será absurdamente vantajosa, sem falar no fato de que não precisaremos ir ao posto de gasolina, pois todas as noites estacionaremos nossos carros no posto de abastecimento privado, que no caso, é a nossa garagem.
Ainda, inegável que, com a utilização da parte mais baixa do carro para acomodação das baterias, toda a dinâmica do carro será alterada para melhor, gerando um centro de gravidade extremamente baixo e proporcionando a distribuição do peso de forma bem mais equilibrada.
Outro ponto positivo e que agrada 95% dos clientes é o silêncio à bordo e redução total da vibração gerada pelos motores convencionais.
E a reunião de todas essas características se resumem em uma condução mais equilibrada, eficaz e segura, reduzindo a rolagem da carroceria em curvas, o que aumenta a segurança do carro.
Sobre a tão falada proteção ao Meio Ambiente, prefiro não tecer comentários, pois tenho severas dúvidas sobre a honestidade dessa premissa.
Em resumo, não obstante as minhas já explanadas dúvidas, o fato é que, como apaixonado por carros, obviamente me encontrarei nessa nova e cada vez mais próxima realidade, pois no fundo, o que nós gostamos mesmo é do prazer de viver as experiências que a vida nos proporciona, em especial quando essas experiências se realizam à bordo dessas obras de arte sobre rodas.
E a boa noticia é que os carros à combustão, ao contrário do exemplo das TVs, não sairão de cena assim tão rápido e ainda permanecerão entre nós por algumas décadas.
Finalizando, para aguçar os leitores, aviso que na próxima coluna trarei as minhas impressões ao volante da novíssima Ford F-150 Lightning, uma camioneta 100% elétrica e com números impressionantes.
Até lá.
Bruno Romero (advogado e apaixonado por carros)

