Uma política pública criada em Mato Grosso do Sul para reduzir a violência e fortalecer o diálogo entre forças de segurança e comunidades indígenas está chamando a atenção do Governo Federal. O modelo dos Conselhos Comunitários de Segurança Indígena, implantado no Estado desde 2006, está sendo avaliado pelo Ministério da Justiça para possível adoção em outros estados, como Amazonas e Pará.
A estratégia consiste em formar grupos eleitos pelas próprias comunidades que atuam como ponte entre moradores e órgãos como a Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros, buscando soluções locais para os problemas de segurança. Com mais de 80 comunidades indígenas, MS já implantou conselhos em 17 aldeias — duas na capital e 15 em cidades do interior.
Relembre o caso: aldeia Te’yikue virou exemplo após pacificação
A aldeia Te’yikue, em Caarapó, com cerca de 2 mil habitantes, é um dos principais exemplos de sucesso. Segundo o coordenador estadual de Polícia Comunitária, coronel Carlos Santana Carneiro, a região enfrentava altos índices de violência e conflitos internos. Hoje, com a atuação do conselho, a própria comunidade denuncia casos, colabora com investigações e mantém contato direto com delegados e comandantes locais.
“Antes havia presença de organizações criminosas e muita insegurança. Agora, com o conselho, a aldeia está mais pacificada. As pessoas voltaram a frequentar a escola à noite e todos se sentem mais seguros”, relatou o cacique Anísio da Silva, atual presidente do conselho local.
Para o conselheiro Joselino Gonçalves, que nasceu na aldeia, o papel do grupo vai além da segurança pública. “Nosso objetivo é ajudar, não importa o horário. Às vezes nem durmo de tanta preocupação com a comunidade”, contou.
Prevenção e cidadania
O secretário-executivo de Segurança Pública de MS, coronel Wagner Ferreira da Silva, ressalta que a iniciativa é mais que uma ferramenta de repressão. “É uma política de Estado, que exige tempo, escuta e adaptação à realidade de cada etnia. Ela não depende de governo, e sim de continuidade”, afirmou.
Segundo ele, a atuação dos conselhos proporciona uma leitura mais precisa dos problemas comunitários, direciona ações com mais eficiência e reduz conflitos. “Os conselheiros são eleitos e representam a voz da comunidade. Eles ajudam a resolver problemas coletivos de forma preventiva e integrada”, explicou.
O vice-governador e secretário de Justiça e Segurança Pública, José Carlos Barbosa (Barbosinha), também destacou a importância da iniciativa. “Esses espaços constroem soluções conjuntas, respeitam a cultura indígena e fortalecem a paz. Em um Estado com uma das maiores populações indígenas do país, são fundamentais para garantir inclusão, cidadania e convivência pacífica.”


