Mato Grosso do Sul tem um déficit de aproximadamente 12 milhões de toneladas na capacidade de armazenagem de soja e milho, segundo levantamento da Aprosoja/MS. O Estado deve produzir 27,9 milhões de toneladas dos dois grãos na safra 2025/2026, enquanto a estrutura disponível comporta 17,19 milhões de toneladas.
O diagnóstico considera a média das cinco últimas safras e aponta que o problema de armazenagem é estrutural. Dos 78 municípios produtores de grãos de Mato Grosso do Sul, 71 apresentam déficit.
Para atender à recomendação técnica da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), seriam necessários 29,22 milhões de toneladas de capacidade. A estrutura atual representa 58,8% desse volume.
O levantamento foi realizado por meio do Projeto SIGA-MS, executado pela Aprosoja/MS com recursos do Fundems/Semadesc. Os dados também estão disponíveis no Painel de Armazenagem, ferramenta gratuita criada pela entidade.
“A análise da capacidade de armazenamento em Mato Grosso do Sul revela um cenário de grande contraste. Embora o Estado possua uma infraestrutura robusta em algumas regiões, a análise detalhada dos dados, cruzando a capacidade estática com a produção agrícola e as recomendações da FAO, evidencia um déficit estrutural significativo que pode comprometer a competitividade do agronegócio sul-mato-grossense a médio e longo prazo”, aponta o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes.
Municípios concentram capacidade
Atualmente, Mato Grosso do Sul possui 799 complexos armazenadores, distribuídos em 65 municípios, com capacidade estática total de 17,19 milhões de toneladas.
Dourados concentra a maior capacidade, com aproximadamente 2,42 milhões de toneladas. O município está entre os sete que apresentam saldo positivo entre a estrutura disponível e a necessidade calculada. Também estão nessa situação Bataguassu, Batayporã, Porto Murtinho, Sidrolândia, Brasilândia e Três Lagoas.
Apesar da concentração de estruturas, grande parte do Estado ainda apresenta déficit.
“Dourados, Sidrolândia, Maracaju, Ponta Porã e São Gabriel do Oeste concentram 49,9% da capacidade de armazenagem identificada no Estado, embora respondam por 37,6% da produção considerada no estudo”, explica o coordenador técnico da Aprosoja/MS, Gabriel Balta.
Ponta Porã e Maracaju, dois dos principais municípios produtores de grãos de Mato Grosso do Sul, acumulam juntos cerca de 2,43 milhões de toneladas de déficit de armazenagem.
Armazéns e logística
O levantamento também mostra a relação entre a capacidade de armazenagem e as principais rotas de transporte do Estado.
Cerca de 41% da capacidade instalada está em unidades localizadas em um raio de até 30 quilômetros da BR-163. Considerando todas as rodovias federais, o percentual chega a 88,6%.
Na malha ferroviária, 306 unidades de armazenagem estão em um raio de até 30 quilômetros das ferrovias existentes. Elas representam 41,6% da capacidade estadual.
Apesar de Mato Grosso do Sul possuir 1.581 quilômetros de ferrovias, apenas 378 quilômetros têm circulação regular. Próximo à Malha Norte, única com operação regular, estão apenas 7,9% da capacidade de armazenagem.
“Embora Mato Grosso do Sul possua 1.581 quilômetros de malha ferroviária, apenas 378 quilômetros apresentam circulação regular. O levantamento identificou 306 unidades de armazenagem em um raio de até 30 quilômetros das ferrovias existentes, correspondendo a 41,6% da capacidade estadual. Próximo à Malha Norte, única com operação regular, estão apenas 7,9% da capacidade”, afirma o analista técnico da Aprosoja/MS, Lucas Santana.
As hidrovias têm participação ainda menor. Apenas 3,9% da capacidade de armazenagem do Estado está localizada em um raio de até 30 quilômetros dos corredores hidroviários analisados.
Segundo Gabriel Balta, a ampliação do uso das hidrovias pode criar novas alternativas para o escoamento da produção e reduzir a pressão sobre as rodovias, principalmente nos períodos de maior movimentação da safra. A navegabilidade dos rios, porém, pode variar ao longo do ano de acordo com os níveis dos cursos d'água.
Rota Bioceânica
A Rota Bioceânica também aparece no levantamento como uma oportunidade de diversificação das alternativas de transporte de Mato Grosso do Sul.
O corredor deve conectar o Estado aos portos do norte do Chile e ampliar o acesso aos mercados internacionais, principalmente da Ásia. Para a Aprosoja/MS, a expansão da capacidade de armazenagem deverá acompanhar a consolidação da nova rota.
Porto Murtinho, onde está a ponta brasileira do corredor, já apresenta superávit de armazenagem. O estudo aponta, porém, a necessidade de que a capacidade no Oeste e no Sudoeste acompanhe a expansão da infraestrutura logística.
Déficit é histórico
Os dados mostram que o descompasso entre a produção agrícola e a expansão da armazenagem vem se acumulando há mais de uma década.
Em 2023, o déficit chegou ao maior nível da série histórica analisada: 21,53 milhões de toneladas. Naquele ano, a necessidade de armazenagem alcançou 35,07 milhões de toneladas, acompanhando o recorde de produção de grãos registrado no Estado.
O cenário indica que safras maiores podem ampliar a pressão sobre a estrutura existente, especialmente diante do avanço tecnológico e da expansão das áreas cultivadas.
O Painel de Armazenagem reúne dados da base nacional da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e informações levantadas em campo pelo SIGA-MS.
O estudo considera exclusivamente soja e milho. Para a soja, foi utilizada a média das safras de 2021/22 a 2025/26. Para o milho, foram consideradas as cinco últimas safras encerradas, de 2020/21 a 2024/25.
Além de dimensionar o déficit, a ferramenta permite identificar onde a capacidade está concentrada, quais regiões têm maior necessidade e áreas com potencial para novos investimentos em armazenagem.

