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domingo, 17 maio 2026

Eleições

23/02/2026 15:00

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Dobradinha entre Michelle e Nikolas amplia fissura bolsonarista e expõe disputa ao espólio político

Divergências sobre sucessão presidencial colocam família Bolsonaro em lados opostos e tensionam base conservadora

Atualizado: 23/02/2026 11:09

Ricardo Prado

A direita brasileira chega a 2026 dividida por uma disputa que mistura herança política, estratégia eleitoral e protagonismo pessoal. O embate entre Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira, de um lado, e Eduardo Bolsonaro, de outro, tornou público um racha que vinha sendo costurado nos bastidores desde a saída do ex-presidente Jair Bolsonaro do Palácio do Planalto.

O estopim mais recente é a resistência da ex-primeira-dama e do parlamentar mineiro em aderir à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto. Para ambos, o nome mais competitivo no campo conservador seria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. A divergência expôs uma disputa pelo controle do legado eleitoral do ex-presidente e acirrou tensões entre aliados históricos do bolsonarismo.

Da derrota de 2022 à reorganização da direita

A divisão atual tem raízes na eleição presidencial de 2022, quando Jair Bolsonaro foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva. Após deixar o cargo, o ex-presidente passou a enfrentar investigações judiciais e restrições políticas que reduziram sua capacidade de articulação direta no país.

Entre 2023 e 2024, Bolsonaro alternou períodos no Brasil e nos Estados Unidos, enquanto seus filhos buscavam manter ativa a base conservadora no Congresso e nas redes sociais. Eduardo Bolsonaro, deputado federal mais votado da história do país em 2018, assumiu papel de interlocutor com setores da direita internacional e intensificou sua presença nos EUA a partir de fevereiro do ano passado.

Ao mesmo tempo, Michelle Bolsonaro ganhou protagonismo no PL Mulher, ampliando sua atuação junto ao eleitorado evangélico e feminino. Nikolas Ferreira, por sua vez, consolidou-se como um dos principais porta-vozes digitais do conservadorismo, com forte presença nas redes sociais e alinhamento frequente com pautas de costumes.

Dezembro de 2025: o anúncio de Flávio

A tensão interna ganhou contornos mais claros em dezembro de 2025, quando Flávio Bolsonaro anunciou ter sido escolhido pelo pai como seu sucessor na disputa presidencial de 2026. O gesto foi interpretado por aliados como tentativa de unificar o campo bolsonarista sob um único nome.

Nos bastidores, no entanto, parte da direita avaliava que Tarcísio de Freitas reunia melhores condições eleitorais, especialmente por seu desempenho administrativo em São Paulo e por dialogar com setores mais amplos do centro político.

Michelle e Nikolas evitaram declarações explícitas de apoio à pré-candidatura de Flávio. A ausência de engajamento público foi lida pelo entorno de Eduardo como sinal de deslealdade.

A escalada pública

Nas últimas semanas, a divergência deixou de ser apenas estratégica e passou ao campo pessoal. Eduardo Bolsonaro criticou Michelle e Nikolas, afirmando que ambos estariam com “amnésia” e “jogando o mesmo jogo” ao não aderirem de forma clara ao nome de Flávio.

A reação veio após Nikolas visitar Jair Bolsonaro na unidade prisional conhecida como Papudinha, no Distrito Federal. Em resposta às declarações de Eduardo, o deputado mineiro afirmou:

“Discordo que eu tenho amnésia e que a Michelle tem amnésia. E diante das situações que estão acontecendo, nós temos o pai dele preso, sofrendo dificuldades de saúde. E a prioridade é nos atacar. Então isso diz muito mais sobre eles do que sobre mim”.

A fala foi interpretada como sinal de que o embate ultrapassou a esfera eleitoral e passou a envolver ressentimentos pessoais e disputas por espaço dentro do movimento.

Espólio político em jogo

No centro da crise está o chamado “espólio político” de Jair Bolsonaro — o conjunto de votos, influência digital, liderança simbólica e capital eleitoral acumulado ao longo de quatro eleições presidenciais.

Eduardo Bolsonaro, impedido de disputar a Presidência neste ano e com sua atuação concentrada nos EUA, vê na manutenção do núcleo familiar unido um elemento essencial para preservar esse capital. Já Michelle e Nikolas defendem que a prioridade deve ser a viabilidade eleitoral do campo conservador, ainda que isso implique apoiar outro nome fora do núcleo direto da família.

A divisão também alcança partidos aliados, parlamentares do PL e influenciadores da direita, que se veem pressionados a escolher lados ou adotar postura de neutralidade estratégica.

Fratura exposta na direita

O racha, que começou como divergência tática, tornou-se uma fratura aberta no campo conservador. Com Bolsonaro fora da disputa e a sucessão indefinida, a direita enfrenta o desafio de equilibrar lealdade ao ex-presidente com pragmatismo eleitoral.

Se, por um lado, a candidatura de Flávio simboliza a continuidade familiar do bolsonarismo, por outro, o nome de Tarcísio representa uma tentativa de ampliar alianças e reduzir rejeições.

A poucos meses da definição formal das candidaturas, a disputa interna mostra que a batalha pela Presidência passa, antes de tudo, pela definição de quem herdará a liderança de um dos movimentos políticos mais mobilizados da história recente do país.

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