sábado, 07 fevereiro 2026

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há 3 semanas

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Banco Master: investigações expõem redes de influência de Daniel Vorcaro na política e no Judiciário

Segunda fase de operação da PF amplia apuração sobre suposta fraude bancária e reforça debate sobre riscos ao sistema financeiro

Atualizado: há 3 semanas

Ricardo Prado - com informações da BBC Brasil

As apurações da Polícia Federal (PF) envolvendo o Banco Master e sua posterior liquidação pelo Banco Central trouxeram novamente ao centro das atenções Daniel Vorcaro, fundador e principal executivo da instituição, apontado como um personagem com trânsito em diferentes esferas do poder político e jurídico no país.

Nesta quarta-feira (14), a PF deflagrou a segunda etapa da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades atribuídas ao banco. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços relacionados a Vorcaro e a familiares próximos, como o pai, a irmã e o cunhado, Fabiano Campos Zettel.

Também foram alvo das diligências o empresário Nelson Tanure e João Carlos Mansur, ex-presidente da gestora Reag Investimentos. As ordens judiciais, expedidas pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), alcançaram 42 endereços em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, além de determinar o bloqueio de bens e valores que ultrapassam R$ 5,7 bilhões.

Em nota, a defesa de Vorcaro afirmou que ele tem “colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes” e que “todas as medidas judiciais determinadas no âmbito da investigação serão atendidas com total transparência”.

Riscos financeiros e influência institucional

Antes de ser liquidado pelo Banco Central, em novembro, o Banco Master ocupava a 22ª posição entre os maiores bancos do país, segundo ranking do Valor Econômico. Com cerca de R$ 63 bilhões em ativos, a instituição representava aproximadamente 2% do tamanho do Itaú Unibanco.

A liquidação ocorreu após suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB), estimadas em R$ 12,2 bilhões — fatos revelados na primeira fase da operação policial.

Apesar do porte reduzido, especialistas avaliam que a quebra do Master representa risco sistêmico. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o caso pode configurar “a maior fraude bancária da história do país”.

Outro ponto de preocupação é o impacto sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A quebra do Master é considerada a maior já registrada em termos de impacto para o fundo, responsável por ressarcir cerca de 1,6 milhão de investidores que possuem aproximadamente R$ 41 bilhões em CDBs.

Para o economista Cleveland Prates Teixeira, professor da Fipe-USP e da FGV-Law, o caso chama atenção pela influência exercida pelo banqueiro. “O que me chama atenção nesse caso é a capacidade de um sujeito que tem um banco pequeno de botar braço para tudo quanto é lado num ambiente político e institucional e contaminar isso. É isso que me assusta”, disse à BBC News Brasil.

Relações políticas

O caso ganhou ainda mais visibilidade após o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jhonatan de Jesus, determinar uma inspeção no Banco Central sobre a decisão de liquidar o banco, medida que gerou reação de entidades do setor financeiro em defesa da autonomia da autoridade monetária.

Reportagens apontam que lideranças como Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União Brasil) teriam atuado como interlocutores políticos em negociações envolvendo a tentativa de venda do Master ao BRB — operação vetada pelo Banco Central.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, chegou a sancionar lei autorizando o BRB a adquirir participação no banco, mas o negócio não avançou. Em novembro, ele declarou ao jornal O Globo que esteve com Vorcaro “uma ou duas vezes em eventos sociais, mas nunca para tratar de banco”.

Doações e vínculos eleitorais

As investigações também trouxeram à tona doações eleitorais. Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, foi o maior doador pessoa física das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022, com repasses que somaram R$ 5 milhões.

A assessoria de Tarcísio afirmou que a campanha contou com mais de 600 doadores e destacou que “a prestação de contas foi devidamente aprovada pela Justiça Eleitoral”.

Conexões no Judiciário

No campo jurídico, a PF encontrou no celular de Vorcaro um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barsi de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. O acordo previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos e não detalhava causas específicas.

Segundo reportagem do O Globo, mensagens internas indicavam que o pagamento ao escritório era tratado como prioridade. Em nota, o STF afirmou que “em nenhuma das reuniões foi tratado qualquer assunto ou realizada qualquer pressão referente à aquisição do Master pelo BRB”.

Ainda de acordo com o Supremo, “o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição Master-BRB perante o Banco Central”.

Perfil do banqueiro

Natural de Belo Horizonte, Daniel Vorcaro, de 42 anos, assumiu o controle do antigo Banco Máxima no fim da década passada e o rebatizou como Banco Master. Sua estratégia se baseou na oferta de CDBs com juros acima da média do mercado.

Em entrevista à revista Piauí, Vorcaro afirmou ser alvo de preconceito no setor financeiro. “Isso acontece por eu ser um outsider. E não é só preconceito. São pessoas que querem nos frear e ficam usando coisas ruins contra nós. É um ataque desnecessário”, disse.

Conhecido por gastos elevados e estilo de vida luxuoso, Vorcaro também teve participação em empreendimentos de alto padrão e patrocinou eventos de grande visibilidade, o que contribuiu para sua projeção pública antes do colapso do banco.

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