Uma investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) detalhou o funcionamento de um esquema de transporte de drogas que utilizava cargas de salgadinhos produzidos em Campo Grande como fachada para enviar entorpecentes a São Paulo.
Segundo o órgão, o esquema era liderado por Kleyton de Souza Silva, que, mesmo detido no presídio de Aquidauana, mantinha atuação ativa na coordenação do tráfico. Ele utilizava um caminhão-baú Volvo, modelo 2007/2008, para realizar fretes que combinavam mercadorias regulares com remessas de maconha e cocaína. Embora o veículo fosse de sua propriedade, estava registrado em nome de Fabrício Aparecido Silva Guilherme, motorista que atuava exclusivamente para o grupo. A medida visava reduzir suspeitas em eventuais abordagens policiais.
As viagens tinham como destino a capital paulista e cidades do interior, como São José do Rio Preto e Araçatuba. Em notas fiscais, constavam cargas de produtos alimentícios industrializados — como batatas fritas e salgadinhos de milho — enquanto os entorpecentes eram acomodados de forma oculta dentro do baú.
O Gaeco identificou pelo menos três transportes organizados por Kleyton. Em um deles, realizado em julho de 2022, cerca de 200 quilos de maconha foram entregues em São José do Rio Preto. Em seguida, outra carga suspeita foi descarregada na zona norte da capital paulista. A rotina era tratada pelo líder como parte do chamado “frete seguro”, expressão usada para definir o uso de cargas lícitas como cobertura para o tráfico.
Mensagens encontradas no celular de Kleyton mostram conversas com o motorista Fabrício, nas quais ele detalhava rotas e justificava o uso de cargas de salgadinhos para facilitar o deslocamento sem levantar suspeitas.
A operação do grupo, no entanto, começou a ruir em outubro de 2022, quando Fabrício foi preso em Araçatuba com 280 quilos de cocaína escondidos no caminhão-baú. A droga tinha como destino Birigui. A denúncia indica que o grupo cobrava cerca de R$ 150 por quilo no transporte de maconha e até R$ 700 por quilo no frete de cocaína — valores que poderiam render quase R$ 200 mil apenas com essa última remessa apreendida, cuja avaliação no mercado ilícito chega a dezenas de milhões de reais.
Operação Blindagem
As investigações integram a Operação Blindagem, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul em outubro de 2025. O órgão apresentou um novo pedido de prisão contra Kleyton, argumentando que ele continuava a exercer funções de liderança mesmo encarcerado. Imagens, conversas e registros encontrados em seu celular reforçariam sua participação ativa em atividades relacionadas ao tráfico e outras práticas criminosas.
O relatório do Gaeco aponta que o grupo estruturou uma logística complexa, que incluía envio de drogas pelos Correios, uso de caminhões com cargas de fachada, comércio ilegal de armas e ações de extorsão contra devedores. Os investigadores também identificaram um núcleo responsável por coletar e acessar dados sigilosos de vítimas, coordenado por Monique Siqueira Lopes Meireles e por um integrante conhecido como “Especialista PCC”.
Outros suspeitos citados no documento respondem por diferentes funções dentro da organização, como cobranças violentas, ameaças e deslocamento forçado de vítimas em Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. Entre eles estão Sebastião Balejo de Arruda, Ênio de Andrade e Silva Filho, João Lucas Paes de Mello, Ângelo Paes Marquesan, Osvaldo Vianna dos Santos Júnior (“Juninho”) e Johan Fabiano Rodrigues Lescano.
Para a promotoria, a permanência de Kleyton em posição de comando justificou a adoção de medidas mais rígidas, com o objetivo de impedir que o grupo continuasse operando a partir do sistema prisional.









