quarta, 11 março 2026

Capital

02/02/2026 20:00

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Polícia Civil aponta influencer presa em Campo Grande como "pistoleira digital"

Investigada por crimes contra a honra, Daniele Santana Gomes é acusada de usar redes sociais para atacar pessoas e empresas com alta visibilidade e lucrar com conteúdos difamatórios

Atualizado: 02/02/2026 12:14

Ricardo Prado

A influencer Daniele Santana Gomes, de 31 anos, presa desde a noite de sexta-feira (31) em Campo Grande, passou a ser tratada pela Polícia Civil como uma “pistoleira digital”. A classificação aparece em relatórios de investigação que apuram a atuação da suspeita nas redes sociais, onde ela teria promovido ataques sistemáticos a pessoas e empresas com grande exposição pública.

Daniele foi detida por descumprimento de medida protetiva e, segundo a Polícia Civil, responde a pelo menos três inquéritos policiais, além de acumular 41 ocorrências registradas ao longo dos últimos anos.

Ataques direcionados e uso estratégico das redes

De acordo com inquérito instaurado na 3ª Delegacia de Polícia de Campo Grande, a influencer mantinha mais de uma dezena de perfis em diferentes plataformas digitais. O mais conhecido deles utiliza o nome “Coach Irônica”. As investigações apontam que os ataques não eram aleatórios, mas direcionados a alvos específicos, escolhidos pela capacidade de gerar engajamento.

“A investigada ataca exclusivamente pessoas ou empresas que, no momento do ataque, possuem elevada visibilidade pública, grande número de seguidores ou relevância econômica local, características que garantem maior engajamento e viralização do conteúdo difamatório produzido”, diz o relatório policial.

O documento acrescenta ainda que esse padrão de atuação sugere a existência de motivação financeira:

“Esse padrão, aliado aos seguintes elementos já colhidos, permite inferir fundadamente que a investigada atua, em diversos casos, como verdadeira ‘pistoleira digital’, supostamente contratada ou incentivada mediante vantagem econômica (doações, Pix, parcerias comerciais disfarçadas ou promessas de reciprocidade futura)”.

Histórico criminal e perfil das vítimas

Segundo a Polícia Civil, Daniele possui 41 registros policiais entre 2017 e 2025, sendo 24 por difamação, 17 por perseguição e 11 por calúnia. As vítimas incluem médicos, advogados, empresários, influenciadores e servidores públicos, sem que haja vínculo pessoal aparente entre eles e a investigada.

Os investigadores destacam que a escolha dos alvos segue um critério claro de visibilidade e repercussão, o que amplia o alcance dos conteúdos publicados e favorece a monetização, especialmente em plataformas como TikTok e YouTube, além de Instagram e Facebook.

Rede de apoio e suspeita de estrutura organizada

As apurações indicam que Daniele contaria com uma rede de apoio familiar, envolvendo seus pais, Raimundo Caetano Gomes e Aparecida Laurentina de Santana Gomes, além do namorado, Ítalo dos Santos Barros. A polícia investiga a suspeita de que os pais teriam auxiliado a influencer a evitar o cumprimento de ordens judiciais, inclusive com possível fornecimento de informações falsas.

Já o namorado é apontado como cogerenciador de perfis e colaborador na divulgação de conteúdos ofensivos, havendo registro de ameaça envolvendo posse de arma de fogo. O inquérito também menciona a existência de uma suposta “equipe jurídica” informal, que forneceria fichas criminais via WhatsApp, sugerindo um mecanismo de intimidação e chantagem digital.

Medidas em análise e prisão recente

A Polícia Civil sugeriu a adoção de medidas cautelares, como busca e apreensão em endereços da investigada e de familiares, quebra de sigilo telemático, bancário e fiscal, suspensão da monetização de contas digitais e inclusão do namorado como investigado formal.

Até o momento, não houve decisão judicial sobre essas solicitações, já que o inquérito foi instaurado no fim de novembro de 2025. Antes disso, Daniele acabou presa por violar medida protetiva relacionada a um familiar. Ela passou por audiência de custódia, teve o pedido de liberdade negado e, no domingo (2), foi encaminhada ao presídio feminino da capital.

Alerta de especialistas

O advogado Bruno Trindade Camatte, que acompanha casos envolvendo ataques virtuais, chamou atenção para o padrão de atuação da influencer.

“Com um modus operandi repetitivo e personalidade complexa, Daniele elegeu como alvo empresários, médicos, advogados e autoridades públicas, passando a persegui-los sistematicamente com difamações, calúnias e exposição indevida de processos judiciais nas redes sociais”, afirma.

“Investigações recentes, conduzidas inclusive por uma delegada de polícia também vitimada, apontam que a acusada opera uma verdadeira associação criminosa com apoio familiar para monetizar ataques à honra dessas figuras públicas”, acrescenta.

Segundo a Polícia Civil, Daniele reúne dezenas de milhares de seguidores, distribuídos em cerca de 10 perfis no Instagram, além de contas no Facebook, Threads, YouTube e Telegram. O maior volume de monetização, no entanto, estaria concentrado no TikTok, onde soma mais de 50 mil seguidores em múltiplos perfis com nomes semelhantes.
 

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