Um episódio incomum ganhou repercussão no meio jurídico e político: o juiz federal Eduardo Appio, conhecido por sua atuação na Operação Lava Jato e por críticas públicas ao ex-juiz e atual senador Sergio Moro, está sendo investigado por uma suspeita de furto de garrafas de champanhe em um supermercado de Blumenau (SC). O caso tramita sob sigilo e é apurado em procedimento disciplinar aberto pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).
Flagrante e apuração
De acordo com registros encaminhados à Justiça Federal, câmeras de segurança do estabelecimento teriam flagrado um homem colocando três garrafas de champanhe Moët & Chandon em uma sacola e tentando deixar o local sem efetuar o pagamento. Os episódios teriam ocorrido em datas diferentes, nos meses de setembro e outubro de 2025. Cada unidade da bebida é avaliada em cerca de R$ 399.
Após a comunicação feita pela Polícia Civil de Santa Catarina, a Corregedoria do TRF-4, sediada em Porto Alegre, instaurou um processo administrativo disciplinar para apurar os fatos. Como medida cautelar, o magistrado foi afastado de suas funções por tempo indeterminado, decisão tomada pela Corte Especial Administrativa do tribunal.
Por envolver um integrante da magistratura federal, o procedimento corre em sigilo, conforme prevê a legislação que regula processos disciplinares desse tipo, com o objetivo de preservar a regularidade da apuração.
Versão da defesa
Eduardo Appio nega as acusações. Em declarações divulgadas pela imprensa, afirmou que não tentou furtar os produtos e que houve pagamento pelas garrafas. O magistrado também sustentou que o episódio teria sido politizado, alegando que a abordagem policial e a divulgação do caso ocorreram em um ambiente hostil às suas posições públicas.
Segundo Appio, os vídeos divulgados seriam manipulados e não teriam respeitado a cadeia de custódia. Ele também sugeriu que agentes envolvidos na ocorrência teriam vínculos políticos, argumento usado para questionar a isenção da apuração. O delegado responsável pelo caso não se manifestou.
Trajetória e controvérsias
Eduardo Appio ganhou projeção nacional ao assumir, em 2023, a 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pelos processos remanescentes da Operação Lava Jato. Durante sua passagem pela vara, adotou decisões que geraram forte repercussão e fez críticas abertas à condução da operação em anos anteriores.
Ainda em 2023, Appio já havia sido alvo de outro procedimento disciplinar, relacionado a uma conduta considerada inadequada em contatos com familiares de magistrados. Na ocasião, houve um acordo que resultou em seu afastamento da vara da Lava Jato.
Desdobramentos
O novo episódio reacendeu debates sobre a conduta de autoridades públicas fora do exercício direto de suas funções e o impacto desses casos sobre a imagem do Judiciário. O procedimento em curso no TRF-4 ainda não tem prazo definido para conclusão.
Ao fim da apuração, o tribunal poderá decidir por medidas que vão desde o arquivamento do caso até sanções mais severas, como advertência, suspensão ou até aposentadoria compulsória, a depender das conclusões do processo disciplinar.









