Um esquema de fraude financeira envolvendo o chamado golpe do “falso advogado” utilizou um braço digital associado ao extinto Banco Master para receber recursos de vítimas em Mato Grosso do Sul, revelaram registros de processos judiciais abertos por pessoas que caíram no golpe.
“Falso advogado” combina dados reais com exigência de pagamento
O golpe começa com a abordagem de um criminoso que se passa pelo advogado da vítima em processos legítimos. Após informar que a ação judicial foi favorável e que valores seriam liberados, o golpista condiciona a liberação do montante ao pagamento de “custos”, “honorários” e outras taxas, segundo relatos das vítimas.
Em ao menos dois casos identificados em Mato Grosso do Sul nos últimos 60 dias, o destino das transferências realizadas pelas vítimas foi uma conta aberta no Will Bank — instituição digital que funcionava como braço do Banco Master e que foi liquidada em 21 de janeiro passado pelo Banco Central.
Uma das vítimas registrou um prejuízo de R$ 248 mil após cair no golpe, enquanto outro reclamante perdeu cerca de R$ 2,5 mil. Em ambos os casos, os valores foram repassados por meio de contas na fintech, que, embora atuasse como banco digital, tinha natureza jurídica de financeira e contava com menos exigências de controle do que instituições bancárias tradicionais.
Vítimas buscam reparação e criticam segurança da instituição
As pessoas lesadas estão buscando na Justiça a devolução dos recursos e indenizações por danos morais contra a Will Financeira — administradora do Will Bank — e outras plataformas que receberam as transferências. Além das contas no Will Bank, intermediárias como Nu Pagamentos (Nubank) e SAQ também foram usadas para captar parte dos recursos envolvidos na fraude.
A advogada que representa uma das vítimas criticou a falta de mecanismos de controle rigorosos que impediriam a utilização das contas por criminosos: “Ao permitirem a abertura de contas-correntes por estelionatários sem a devida diligência, violaram frontalmente as normas do Banco Central do Brasil...” — afirma trecho de petição em processo na Justiça Federal.
Os processos citam a necessidade de observância de normas como a Resolução nº 4.753/2019 e a Circular nº 3.978/2020, que estabelecem procedimentos de “Conheça Seu Cliente” (Know Your Customer – KYC) para prevenir lavagem de dinheiro e outros usos ilícitos das contas.
O combate ao esquema e os riscos para consumidores
Apesar da liquidação do Will Bank, as consequências do golpe continuam a repercutir. Instituições de advocacia e órgãos de defesa do consumidor, como a Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul (OAB-MS), têm cobrado medidas mais efetivas das autoridades e das plataformas digitais para bloquear linhas e contas usadas por golpistas e proteger potenciais vítimas.
Golpes do tipo vêm crescendo em várias regiões do país, levando entidades como o Conselho Federal da OAB a lançar ferramentas de verificação da identidade de advogados, como a plataforma ConfirmADV, que já recebeu milhares de solicitações para conferir a autenticidade de profissionais antes de qualquer transação financeira.
Especialistas em segurança orientam que, antes de realizar qualquer pagamento a supostos representantes legais, as pessoas entrem em contato diretamente com seus advogados por canais oficiais ou verifiquem a situação junto à Justiça para evitar cair em fraudes.









