A proposta do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre diversos produtos brasileiros reacendeu a preocupação com o mercado de etanol de milho, um dos segmentos que mais crescem em Mato Grosso do Sul. Apesar de o agronegócio ter ficado fora da lista inicial de sobretaxas apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), a chamada “guerra do etanol” aparece como um dos principais pontos de atrito entre os dois países.
A medida foi anunciada na segunda-feira (1º) como resultado de uma investigação comercial iniciada em 2025 pelo governo do presidente Donald Trump. O relatório do USTR aponta que algumas políticas brasileiras prejudicariam empresas norte-americanas e cita diretamente o setor de biocombustíveis.
Segundo o documento, o Brasil passou a cobrar uma tarifa de 18% sobre o etanol importado dos Estados Unidos, enquanto o produto brasileiro entra no mercado norte-americano com tarifa reduzida. O governo americano afirma que essa diferença teria provocado uma queda expressiva nas exportações de etanol dos EUA para o Brasil nos últimos anos.
A preocupação é especialmente relevante para Mato Grosso do Sul, que vive uma forte expansão da indústria de etanol de milho. Nos últimos meses, novos investimentos foram anunciados no Estado, consolidando a região como um dos principais polos nacionais de produção do biocombustível.
Em maio, a Atvos lançou a pedra fundamental de sua primeira unidade de processamento de milho, que será instalada em Nova Alvorada do Sul. Antes disso, em março, foi anunciada a instalação de uma nova usina em Jaraguari, com investimento estimado em R$ 300 milhões.
Além dos novos empreendimentos, Mato Grosso do Sul já abriga importantes operações da Inpasa, considerada a maior produtora de etanol de milho da América Latina, com unidades em Dourados e Sidrolândia. A CerradinhoBio também mantém plantas industriais em Maracaju e Chapadão do Sul.
Especialistas do setor avaliam que o avanço da produção brasileira transformou o país em um dos principais concorrentes dos Estados Unidos no mercado internacional de etanol. Para a diretora-executiva da Sociedade Rural Brasileira, Patrícia Arantes, a expansão da capacidade produtiva em estados como Mato Grosso do Sul ajuda a explicar a crescente disputa comercial.
Apesar da tensão envolvendo o etanol, o agronegócio brasileiro recebeu uma sinalização positiva com a exclusão de produtos agrícolas da proposta de tarifa. Carnes, café, cereais, frutas, sementes, oleaginosas e fertilizantes ficaram fora da lista apresentada pelo governo americano.
Analistas avaliam que a decisão reflete a dependência dos próprios Estados Unidos de parte das commodities brasileiras e o receio de impactos nos preços dos alimentos e nas cadeias globais de abastecimento.
A proposta ainda não entra em vigor imediatamente. O governo americano abriu um período de consulta pública e estabeleceu o dia 15 de julho como prazo para eventual adoção das chamadas medidas corretivas. Até lá, seguem as negociações diplomáticas entre Brasília e Washington.
Após encontro realizado em maio entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, os dois países criaram um grupo de trabalho para buscar uma solução para o impasse comercial. Entretanto, até o momento, não há indicativos de um acordo definitivo.









