Milhares de agricultores de diversos países da União Europeia ocuparam nesta quinta-feira (18) as ruas de Bruxelas, capital da Bélgica, em um dos maiores protestos contra o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e os países do Mercosul. A mobilização coincidiu com a cúpula dos 27 líderes da UE, que se reuniam para discutir o futuro do pacto comercial que está em negociação há cerca de 25 anos e que prevê a eliminação gradual da maioria dos direitos aduaneiros entre os blocos.
Protesto intenso e confrontos nas ruas
A manifestação, que reuniu agricultores de todos os 27 países europeus, começou pacífica com tratores bloqueando vias próximas ao Parlamento Europeu e outras instituições do bairro europeu. Porém, com o passar do dia, o protesto se intensificou: manifestantes atearam fogo em pneus, lançaram fogos de artifício e jogaram batatas, ovos e outros objetos contra a polícia. Em resposta, forças de segurança usaram gás lacrimogéneo e jatos de água para dispersar a multidão e restabelecer a ordem nas principais rotas de acesso.
Imagens também mostram barreiras improvisadas pelos agricultores e relatos de janelas danificadas na área, em um cenário de tensão que refletiu a profunda insatisfação do setor rural europeu.
Motivações dos agricultores
Os agricultores protestam principalmente contra a possível assinatura do acordo comercial entre a UE e o Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, que eliminaria tarifas sobre grande parte das mercadorias negociadas entre os dois blocos. Eles temem que a abertura do mercado favoreça a entrada de produtos mais baratos da América do Sul — como carne bovina, açúcar, arroz, mel e soja — que teriam custo mais baixo devido a práticas regulatórias e ambientais menos rigorosas, o que poderia prejudicar a competitividade dos produtores europeus.
A mobilização também incorporou críticas a reformas previstas na Política Agrícola Comum (PAC) da UE, com agricultores pedindo proteção reforçada ao setor diante da crescente concorrência internacional e potenciais cortes nos recursos destinados à agricultura.
Debate político e incertezas sobre o acordo
A aprovação do acordo com o Mercosul tem se mostrado cada vez mais incerta. Países como França e Itália lideram a oposição internamente, com o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmando que o tratado “não pode ser assinado” sem garantias adicionais, especialmente em relação a padrões ambientais e proteção da agricultura local.
Por outro lado, nações como Alemanha e Espanha pressionam por uma decisão positiva, argumentando que o acordo poderia reforçar a posição da UE no comércio global e contrabalançar políticas protecionistas de outros atores econômicos.
França, Polônia, Bélgica, Áustria e Irlanda também se coordenaram para tentar adiar ou bloquear a assinatura do tratado, alegando que as salvaguardas negociadas até agora são insuficientes.
Pressão da Comissão Europeia para avanço do tratado
Em meio aos protestos e às divisões internas entre os Estados-membros, a presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, intensificou a pressão para que os líderes dos 27 países da União Europeia aprovem o acordo comercial com o Mercosul. Segundo ela, o tratado com Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai ocupa posição estratégica na política comercial do bloco e é considerado central para a ampliação da rede de acordos internacionais da UE.
A Comissão Europeia, braço executivo da União, avalia que a conclusão do pacto é fundamental para fortalecer a competitividade europeia e reduzir dependências externas em um cenário global marcado por disputas comerciais. Apesar da resistência de países como a França, o órgão trabalha com a expectativa de que o acordo seja formalmente assinado até o final deste ano, mantendo o tema como prioridade na agenda das lideranças europeias.
Impactos mais amplos e próximos passos
O acordo Mercosul-UE, se aprobado, criaria uma das maiores áreas de livre comércio globais, abrangendo cerca de 780 milhões de pessoas e um quarto do produto interno bruto mundial. Seus defensores argumentam que isso poderia aumentar a exportação europeia de veículos, máquinas e vinhos, ao mesmo tempo em que fortalecesse a posição geoeconômica da UE em relação a mercados como China e Estados Unidos.
Apesar da pressão governamental e da determinação da Comissão Europeia em avançar com o pacto, a forte resistência interna e os protestos dos agricultores colocam em dúvida se o tratado será finalmente assinado. A decisão deve continuar sendo debatida nos próximos dias pelas lideranças europeias.


