A direção dos Correios anunciou nesta quarta-feira (15) que está em processo de negociação com instituições financeiras para obter um financiamento de R$ 20 bilhões, com o objetivo de reforçar o caixa e estabilizar as contas da estatal, que vive uma das piores crises financeiras da sua história.
O anúncio foi feito pelo novo presidente da empresa, Emmanoel Schmidt Rondon, que está à frente da estatal há menos de um mês. Segundo ele, o contrato ainda está em fase de tratativas com os bancos, e o valor solicitado será usado para melhorar a liquidez, garantir o cumprimento de compromissos com fornecedores, e viabilizar ações como um novo plano de demissão voluntária (PDV).
“É necessário recuperar a capacidade financeira da empresa para que possamos cumprir obrigações básicas, como o PDV. A operação de crédito está sendo articulada com instituições bancárias”, declarou Rondon.
Situação financeira crítica
No primeiro semestre de 2025, os Correios registraram prejuízo de R$ 4,3 bilhões, agravando ainda mais o cenário negativo que se arrasta desde 2022. Para efeito de comparação, no mesmo período do ano anterior, as perdas foram de R$ 1,3 bilhão. Desde então, a estatal vem enfrentando atrasos em repasses, cortes em serviços e paralisações parciais na logística.
De acordo com os dados apresentados, R$ 2,9 bilhões do caixa e aplicações financeiras da empresa foram consumidos ao longo de 2024, comprometendo 92% dos recursos disponíveis no fim de 2023. A gestão anterior já havia tentado conter a deterioração das finanças com um empréstimo emergencial de R$ 1,8 bilhão, destinado a cobrir o fluxo operacional.
Impacto nas operações
A escassez de recursos resultou em diversos atrasos, como repasses a transportadoras contratadas, comissões das agências franqueadas e contribuições ao plano de saúde dos funcionários, que chegaram a ser suspensas por parte da rede hospitalar credenciada.
Em documento interno ao qual o g1 teve acesso, a empresa reconhece que os pagamentos estão sendo realizados conforme as "disponibilidades financeiras", e não de acordo com os cronogramas firmados anteriormente.
Em julho, a estatal optou por postergar o pagamento de R$ 2,75 bilhões em obrigações, com o objetivo de preservar recursos em caixa. As dívidas adiadas incluíam tributos, fornecedores, benefícios aos funcionários e repasses a entidades ligadas à empresa, como o Postalis (fundo de pensão) e o Postal Saúde.
Valores devidos (dívidas postergadas)
- INSS Patronal: R$ 741 milhões
- Fornecedores: R$ 652 milhões
- Postal Saúde: R$ 363 milhões
- Programa Remessa Conforme: R$ 271 milhões
- Vale-alimentação/refeição: R$ 238 milhões
- PIS/Cofins: R$ 208 milhões
- Postalis: R$ 138 milhões
- Franqueadas: R$ 135 milhões
Segundo os Correios, 53% dessas dívidas são passíveis de multa e juros, mas não interrompem diretamente as operações da empresa.
Novas medidas para recuperação
O plano atual de reestruturação da estatal está dividido em três eixos:
- Redução de despesas operacionais e administrativas
- Ampliação da capacidade de geração de receita
- Reforço da liquidez com acesso a novos recursos financeiros
Para reduzir os gastos, a empresa deve relançar um plano de demissão voluntária, além de vender imóveis não utilizados e renegociar contratos com grandes fornecedores. A última edição do PDV, encerrada em maio, teve adesão de cerca de 3.500 empregados.
Além disso, a gestão pretende criar novos produtos e serviços, com foco na diversificação de fontes de receita — embora os detalhes dessas iniciativas ainda não tenham sido divulgados.
Medidas anteriores com impacto limitado
Boa parte das ações agora retomadas já havia sido anunciada pela administração anterior em maio de 2025. Entre elas:
- Revisão da estrutura organizacional da sede
- Redução da jornada de trabalho e de cargos comissionados
- Suspensão temporária de férias
- Retorno obrigatório ao trabalho presencial
- Lançamento de novos planos de saúde
- Parceria com o New Development Bank para captação de R$ 3,8 bilhões
- Venda de ativos e imóveis
- Criação de um marketplace próprio
O presidente Emmanoel Rondon afirmou, no entanto, que as medidas anteriores foram emergenciais e tiveram efeito limitado no redesenho da empresa. Agora, segundo ele, o foco está em mudanças estruturantes e com impacto duradouro.
“As ações tomadas antes foram importantes, mas pontuais. Agora, estamos buscando soluções que transformem a estrutura financeira e operacional da estatal”, destacou.


