quarta, 11 março 2026

TURISMO

há 3 meses

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Indígenas de Nioaque abrem aldeias para rota turística de ancestralidade

Projeto conduzido pelas próprias comunidades oferece vivências culturais, memória oral, culinária e imersão em territórios Terena e Atikum

Atualizado: há 3 meses

Suelen Morales

A Terra Indígena Nioaque, às margens da BR-060 e próxima à Serra de Maracaju, inaugurou um novo capítulo em sua história ao abrir suas aldeias para uma rota turística baseada em ancestralidade e imersão cultural. O território, marcado pela memória da Guerra do Paraguai e pela resistência dos povos originários, agora oferece trilhas, vivências e experiências guiadas pelos próprios moradores das cinco aldeias Terena e Atikum: Brejão, Água Branca, Taboquinha, Cabeceira e Vila Atikum.

Com 3.029 hectares de cerrado preservado, o território abriga 1.533 indígenas e mantém sua economia sustentada pela agricultura de subsistência e pela relação direta com os recursos naturais. O etnoturismo surge como alternativa para fortalecimento cultural, autonomia financeira e proteção territorial.

O cacique da aldeia Brejão, Ademar da Silva, relembra que os limites originais eram marcados pelos rios e que o povo enfrentou sucessivas reduções por avanço de fazendas. Ele afirma que a região serviu de refúgio na Guerra do Paraguai e que seus ancestrais relataram perdas causadas por doenças e conflitos. Com a abertura ao turismo, diz enxergar novas possibilidades. “Temos culinária rica e tradições fortes. Já recebemos visitantes, mas nunca de forma organizada e planejada como agora. É uma oportunidade para todos nós.”

Etnoturismo com gestão indígena

O projeto NIOAC: Cultura & Turismo Indígena foi construído pelas próprias comunidades, que participaram de reuniões, formações e definição dos roteiros. O Sebrae, em parceria com a Prefeitura de Nioaque, a Fundação de Cultura e a Secretaria de Cidadania, coordenou a estruturação das atividades. Todas as decisões passam por um Conselho Gestor de Turismo, formado por lideranças indígenas, responsável pela gestão comunitária e pela preservação dos saberes tradicionais.

O plano de visitação, lançado em 29 de novembro, organiza as diretrizes de governança, empreendedorismo, cultura e infraestrutura. A abertura oficial ao mercado turístico depende da anuência da Funai. As visitas devem começar a partir de janeiro de 2026, aos sábados, domingos e feriados, mediante agendamento prévio.

Experiências nas aldeias

Na aldeia Brejão, fundada oficialmente em 1904, o visitante participa de um dia de espiritualidade Terena, com oficina de grafismo, trilha até a antiga morada de Hermogênio e banho no Rio Urumbeva. O almoço será preparado por Dona Elza Lisboa, de 72 anos, conhecida por sua culinária tradicional. A vivência termina com danças Terena e um encontro de cura conduzido pela benzedeira Dona Hilda.

Na Taboquinha, a trilha homenageia o ancião Airton Ojeda e inclui grafismo, banho de rio e almoço com frango e pequi. A tarde segue com histórias, chás e artesanato com Tia Rita. A aldeia também oferece camping e cavalgadas pelo cerrado.

Na Água Branca, núcleo histórico-cultural da TI, o visitante conhece o Centro de Memória, apresentações culturais e a vivência com plantas medicinais conduzida pelo raizeiro Ramon. O almoço fica a cargo da chef Vilma Fabiany, que serve pratos tradicionais como coração de banana com carne. A aldeia terá pousada com cinco quartos e serviço de transfer para turistas.

Já a experiência entre a aldeia Cabeceira e a Vila Atikum reúne práticas Terena e Atikum. Na Cabeceira, o visitante participa de rituais, danças, grafismo, arco e flecha e almoço na casa de Dona Sabina. O dia encerra com a “pizza especial Terena”, criada pelo professor Thiago Souza, com massa enriquecida com ingredientes do cerrado. Na vivência Atikum, o turista conhece a história de migração da Serra do Umã, em Pernambuco, seguida de dança, jantar tradicional e o Forró Atikum.

Formação e planejamento

Desde janeiro de 2025, mais de 300 moradores participaram de capacitações em primeiros socorros, hotelaria, atendimento, segurança turística, manipulação de alimentos e fotografia, além do seminário Empretec. Para o Sebrae/MS, o projeto marca o nascimento de um turismo protagonizado pelos próprios indígenas, reforçando identidade e geração de renda. A Prefeitura de Nioaque destaca que o etnoturismo fortalece a cultura local e cria oportunidades econômicas para as famílias.

Contexto histórico

A Terra Indígena Nioaque fica a 200 quilômetros de Campo Grande e carrega memória profunda dos povos originários. O território foi cenário da Guerra do Paraguai, abrigo de soldados e área marcada por reorganizações internas desde o século 18. O pesquisador Claudionor do Carmo Miranda descreve quatro períodos históricos vividos pelo povo Terena, culminando no atual “Período de Libertação”, em que educação, fortalecimento cultural e recuperação territorial se tornam prioridades da comunidade.

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