O governo federal incluiu a tilápia na Lista Nacional Oficial de Espécies Exóticas Invasoras e, simultaneamente, autorizou a importação do peixe vindo do Vietnã pela JBS. A decisão, que combina restrição ambiental com abertura comercial, provocou indignação entre produtores e entidades da piscicultura em todo o país, que falam em “caos” e “concorrência desleal”.
Enquanto os criadores tentam entender os impactos da nova classificação, o primeiro contêiner de tilápia vietnamita — 24 toneladas — saiu do porto de Ho Chi Minh no dia 6 de novembro, com destino ao Porto de Santos (SP). A operação faz parte de um lote de 700 toneladas que a JBS pretende comercializar no Brasil até o fim do ano, atendendo redes varejistas e o setor de alimentação.
O peixe que move a piscicultura brasileira
O Brasil é hoje o quarto maior produtor mundial de tilápia, atrás apenas de China, Indonésia e Egito. De acordo com o Anuário PeixeBR 2025, o país produziu 662,2 mil toneladas do peixe em 2024 — alta de 14,3% em relação ao ano anterior —, o que representa 68% da produção nacional de peixes cultivados.
A atividade sustenta cerca de 3 milhões de empregos diretos e indiretos, movimenta US$ 59 milhões em exportações e garante o abastecimento do mercado interno.
Além da relevância econômica, a tilápia é também o peixe mais consumido do Brasil, com crescimento médio anual de 10,3%. A preferência se deve à qualidade da proteína, ao baixo teor de gordura e à ampla aceitação em dietas equilibradas.
Importação da JBS acirra a crise
A JBS, gigante global do setor de proteína animal, iniciou a importação do peixe processado do Vietnã após um acordo bilateral firmado na Cúpula Ampliada do BRICS, em julho deste ano.
Pelo pacto, o Brasil abriu o mercado para tilápia, peixe-galo e peixe-basa vietnamitas, enquanto o Vietnã passou a permitir a entrada da carne bovina brasileira.
Para o governo, a medida tem caráter técnico e faz parte de um esforço diplomático de reciprocidade comercial. Mas, para produtores e entidades como a PeixeBR, trata-se de uma decisão “imprudente”, com potencial de desestruturar toda a cadeia nacional.
“Enquanto o Vietnã expande seus mercados, o Brasil parece remar contra as próprias políticas de incentivo à piscicultura”, criticou um representante da PeixeBR.
Risco sanitário e perda de competitividade
O setor alerta para riscos sanitários, já que as condições de cultivo no Vietnã diferem das brasileiras e podem introduzir doenças inexistentes nos criadouros nacionais.
Além disso, o baixo custo de produção da tilápia asiática, favorecido por subsídios e legislações ambientais mais flexíveis, cria um cenário de concorrência desleal frente aos piscicultores brasileiros, que enfrentam custos altos e regras rigorosas.
Há também o temor de dependência externa, caso a importação se consolide, reduzindo o preço pago ao produtor local e desestimulando novos investimentos no setor.
Governo tenta conter a reação
O Ministério da Pesca e Aquicultura afirmou que acompanha os desdobramentos, mas destacou que a autorização de importação é competência do Ministério da Agricultura (Mapa).
Já o Ministério do Meio Ambiente esclareceu que a inclusão da tilápia como espécie exótica invasora não impede o cultivo comercial, mas reconheceu que interpretações equivocadas podem gerar entraves burocráticos em licenciamentos estaduais e municipais.
Apesar das tentativas de apaziguar o setor, o clima é de insegurança. Produtores temem que as medidas — em vez de proteger o meio ambiente e fortalecer o comércio — acabem ameaçando um dos segmentos mais sólidos e promissores do agronegócio brasileiro.









