domingo, 18 janeiro 2026

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Irã enfrenta uma das maiores ondas de protestos em décadas enquanto governo corta internet

Líder supremo rejeita recuar diante de manifestações impulsionadas por crise econômica; repressão estatal e apagão digital marcam intensificação do conflito

Atualizado: há 1 semana

Ricardo Prado

O Irã vive uma escalada sem precedentes de protestos populares que já duram quase duas semanas, enquanto o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, afirmou nesta sexta-feira (9) que a República Islâmica “não vai recuar” diante da mobilização popular. Os protestos, que começaram em 28 de dezembro de 2025 e se espalharam pela maioria das províncias iranianas, foram desencadeados por insatisfação com o alto custo de vida, a desvalorização da moeda local e dificuldades econômicas profundas.

A resposta do regime tem incluído um corte quase total do acesso à internet e às comunicações telefônicas em todo o país, além de uma repressão violenta das forças de segurança que deixou dezenas de mortos e milhares de detidos.

Protestos ganham força em todo o país

As manifestações que começaram com lojas fechando e comerciantes protestando contra o colapso do rial — moeda iraniana — rapidamente se transformaram em um movimento mais amplo contra o regime teocrático que governa o país há mais de quatro décadas. Em várias cidades, incluindo Teerã, Karadj, Mashhad e Kermanshah, multidões ocuparam ruas, entoando slogans como “Morte ao ditador” e “Esta é a última batalha, Pahlavi voltará”, em referência ao príncipe exilado Reza Pahlavi, figura simbólica de oposição ao sistema vigente.

Organizações de direitos humanos relatam dezenas de mortes e milhares de prisões. A ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, estimou que pelo menos 45 manifestantes, entre eles oito menores, foram mortos desde o início das mobilizações, e mais de 2.000 pessoas foram detidas em todo o país.

Vídeos compartilhados anteriormente mostravam cenas de confrontos com forças de segurança, incêndios em edifícios públicos e barricadas nas ruas, refletindo o aumento da frustração popular em meio à deterioração das condições econômicas e sociais.

Apagão digital e restrições às comunicações

Em uma tentativa de conter a disseminação de informações e dificultar a organização dos protestos, as autoridades iranianas impuseram um apagão nacional da internet, bloqueando acesso a redes e serviços de telecomunicação por vários dias. O monitoramento da conectividade por grupos como NetBlocks confirmou a interrupção quase total da internet em todo o território iraniano.

Além do corte digital, há relatos de que as comunicações com o exterior — incluindo linhas telefônicas internacionais — foram severamente limitadas, dificultando a transmissão de notícias e a coordenação de respostas da sociedade civil.

Resposta do regime e discurso de Khamenei

Em discurso televisionado, Khamenei descartou a possibilidade de recuar diante dos protestos e classificou os manifestantes como “sabotadores” e agentes de influências externas. Ele tem associado a insurgência a governos estrangeiros, incluindo críticas à postura dos Estados Unidos sob o ex-presidente Donald Trump em relação ao Irã, e prometeu medidas severas contra os envolvidos em atos que o regime considera ilegítimos.

O poder central também tem reforçado a presença de forças de segurança nas ruas, com relatos de uso de força letal em várias localidades. Apesar de algumas autoridades, como o presidente Masoud Pezeshkian, apelar ao diálogo e à “moderação máxima”, a repressão tem dominado a resposta oficial.

Cenário global e perspectivas

A situação no Irã tem atraído atenção internacional, com governos e organizações de direitos humanos condenando a repressão e pedindo respeito às liberdades civis. A grave crise econômica — marcada por inflação elevada, falta de produtos básicos e desvalorização do rial — é apontada como o principal motor das insatisfações populares, embora fatores políticos e sociais também alimentem a indignação.

Com a comunicação limitada e as tensões internas ainda em alta, o país enfrenta um momento crítico que pode definir não apenas a trajetória do governo clerical, mas também o futuro das liberdades civis e da estabilidade política no Oriente Médio.
 

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